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Eu não nasci no dia do meu nascimento

Eu não nasci no dia do meu nascimento. Nasci aos dois minutos e quatro segundos de uma canção de Geraldo Azevedo. Explico. Embora eu ache que ninguém explica um parto. Parir é um verbo que pode até ser transitivo ou intransitivo — mas nunca explicável. Eu não fui parida pela minha mãe. Não fui não.Nascer do útero é coisa do mundo dos vivos demais, dos racionais demais, dos chatos demais. Eu nasci mesmo foi aos dezenove anos, depois de encontrar o amor e dançar com ele em um salão na Rua Cardeal Arco Verde, em São Paulo. Sim, eu dei uma sorte dessas. Novinha, o reconheci. O amor. E foi ele quem me pariu. Meu parto se deu numa pista de dança de um lugar que já não existe mais — e que eu nunca, em vida alguma, consegui esquecer que um dia existiu. Eu ainda estava em gestação na fila de uma casa noturna que tocava forró pé-de-serra. E não estava sozinha. Duas amigas esperavam comigo a casa abrir.  Era noite. E minha pele ainda brilhava como meus olhos castanhos e as luzes da cidade. O ...