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Mostrando postagens de junho, 2022

O que aprendi com Alberto Caeiro

Nessa ultima segunda-feira de outono, eu sou apenas alguém que passa o café enquanto retira as roupas do varal. Nada mais que isso e finda a manhã. Vou até a cozinha e verifico a fervura da água, retorno à varanda, retiro uma camisa, dobro-a com coração de mãe que pede demora e olhar atento, posto-a num banco de espera e volto à cozinha. Observo o derramar da água no pó miudinho e acho graça, mas não penso. Gosto do que vejo, do que sinto, mas não penso sobre o que vejo nem sobre o que sinto. Porque pensar, me ensinou Caeiro, é não ver. E esse texto é sobre a minha salvação, ou melhor, é sobre a salvação de todas as pessoas que assim como eu sentem muito, sorte a nossa: há desenlace para nossas pujanças, o medicamento é a literatura. Apenas ser. Alberto Caeiro, aquele heterônimo* de Fernando Pessoa, sabe?, foi ele o meu terapeuta às duas e meia de uma madrugada gelada, já que não é possível uma consulta particular a essa hora, e a gente, que escreve, tem hora marcada para sofrer: na ma...

Sobre ancestralidade e a mistura do passado com o presente na criação do futuro

(Salve, Evaristo!) Hoje, conversando com minha avó preta (como a gente da família sempre a chamou), ela resolveu me contar algo que nunca tinha me contado antes: o motivo de não ter frequentado a escola. Vó Margarida me disse que seu pai, indígena e (segundo ela) desligado da vida, não registrou nunca ela em cartório algum. Minha vó cresceu inexistente, nas palavras dela. E como não existia, seu pai não tinha como matriculá-la na escola. Vó Margarida existia. Mas não no documento. Não para o Estado. Vó Margarida não existia e por isso não tinha direitos? Ou não tinha direitos e por isso não existia? Só depois de adulta, vó Margarida foi registrar sua existência. Aprendeu apenas a ler, mas diz não saber escrever, pois, nas palavras dela, ler e escrever são coisas diferentes. Vó Margarida lê muito. Disse ainda, no telefone, que teve de levar duas testemunhas no cartório para fazer o primeiro registro dela. Vó Margarida teve que levar duas pessoas para provar que ela existia. Só a presenç...