O que aprendi com Alberto Caeiro
Nessa ultima segunda-feira de outono, eu sou apenas alguém que passa o café enquanto retira as roupas do varal. Nada mais que isso e finda a manhã. Vou até a cozinha e verifico a fervura da água, retorno à varanda, retiro uma camisa, dobro-a com coração de mãe que pede demora e olhar atento, posto-a num banco de espera e volto à cozinha. Observo o derramar da água no pó miudinho e acho graça, mas não penso. Gosto do que vejo, do que sinto, mas não penso sobre o que vejo nem sobre o que sinto. Porque pensar, me ensinou Caeiro, é não ver. E esse texto é sobre a minha salvação, ou melhor, é sobre a salvação de todas as pessoas que assim como eu sentem muito, sorte a nossa: há desenlace para nossas pujanças, o medicamento é a literatura. Apenas ser. Alberto Caeiro, aquele heterônimo* de Fernando Pessoa, sabe?, foi ele o meu terapeuta às duas e meia de uma madrugada gelada, já que não é possível uma consulta particular a essa hora, e a gente, que escreve, tem hora marcada para sofrer: na ma...