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Mostrando postagens de dezembro, 2023

A casa amarela

            ( Repostando um dos meus textos favoritos, presente no meu livro "Miscelânea")            Tentei buscar fotos e não encontrei muitas. Levaram meu celular e com ele boa parte das lembranças da casa amarela: a primeira casa na qual morei com meu filho. Antiga. Pequena. De aluguel brando. Com muita reforma por fazer. Varal sempre remendado. Um dos muros ainda na argamassa. Dois vizinhos de corredor. E o que mais me importava: a cor e o sol.              A casa era toda pintada de amarelo e os raios de sol entravam pelas janelas amplas e altas, daquelas que a gente abre para fora e fica pensando o que sente por dentro a pessoa que se dedica a fabricar janelas. Gente que bota na mão a responsabilidade de lembrar o outro de que a vida acontece lá fora.              A minha era a casa do meio. A de número dois. E moravam nela, p...

"Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"

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Descalça, os meus primeiros passos foram dados no décimo andar de um prédio antigo na Avenida da Consolação. De lá eu soube do seu pendor para uma nebulosa: com sua imensa nuvem de gás e poeira, São Paulo é uma cidade que, ironicamente, gera estrelas de suas próprias contradições. É por isso que muita gente quando chega aqui, não entende nada mesmo, Caetano. Só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João e olhe lá. Mas entendi precocemente e sem modéstia nenhuma que a matéria de que é feito esse lugar também foi capaz de gerar em mim fatos significativamente tangíveis. São Paulo nos dá forma, nos concretiza. Volto a essa cidade com a certeza de que é aqui que habita o aço que reveste meu peito e que é aqui também que as estrelas rompem o próprio material que as cerca, o que, mais uma vez, é irônico, porque foi dessa substância que se originaram. São Paulo é uma nebulosa. Nós, paulistanos, somos uma ironia estrelar. A Praça Roosevelt me deu meu primeiro machucado no joelho e na alma. F...

A Bernardo Soares

A um apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe, sozinha, completamente sozinha, aqui também cheguei, Bernardo Soares. Sob um vestido roto de cambraia e um sol cálido de um verão que se antecipou e tingiu as marcas de minha sandália sobre meus pés. Na minha mão estava apenas um alforje sem seu cavalo, perdido em alguma quimera do meu passado. Cheguei a esta paragem sozinha. O que sou é a minha bagagem, companhia e recompensa. O botão que deixa inciso o pano acima do meu busto, perdi no caminho. Virou miçanga com que uma criança presenteia sua mãe. A fina linha que tecia o bordado dos meus ombros está presa num graveto de uma árvore no meio da Mata Atlântica, que é o bioma que mais se aproxima em tamanho e diversidade dos percalços que me engendraram. Sim, eu vim maltrapilha e sem nada, porque de onde venho não há matéria de que são feitos os meus sonhos. Não é possível perpetuar os segundos de um riso, então os deixei em uma praia para um casal adolescente encontrar. T...