A Bernardo Soares
A um apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe, sozinha, completamente sozinha, aqui também cheguei, Bernardo Soares. Sob um vestido roto de cambraia e um sol cálido de um verão que se antecipou e tingiu as marcas de minha sandália sobre meus pés. Na minha mão estava apenas um alforje sem seu cavalo, perdido em alguma quimera do meu passado. Cheguei a esta paragem sozinha. O que sou é a minha bagagem, companhia e recompensa.
O botão que deixa inciso o pano acima do meu busto, perdi no caminho. Virou miçanga com que uma criança presenteia sua mãe. A fina linha que tecia o bordado dos meus ombros está presa num graveto de uma árvore no meio da Mata Atlântica, que é o bioma que mais se aproxima em tamanho e diversidade dos percalços que me engendraram. Sim, eu vim maltrapilha e sem nada, porque de onde venho não há matéria de que são feitos os meus sonhos. Não é possível perpetuar os segundos de um riso, então os deixei em uma praia para um casal adolescente encontrar. Também não confio nas verdades de fotografias que podem tecer tramas irreais ou realidades irrecuperáveis. E como não sei o que é pior, se as tramas irreais ou as realidades irrecuperáveis, não trouxe fotografias. Também não carrego cigarros nem qualquer objeto ilícito, porque até para me servir de atalhos fui covarde. Nunca estive entre aqueles que se retiram dos lugares para fumar. Sou aquela que fica no meio do salão sentindo a dor dos que não tragam.
Então, Bernardo Soares, o que trago nesse alforje de couro andrajoso são apenas palavras escritas em guardanapos que furtei dos recintos em que estive a me encontrar com o Espírito do Tempo. Quem me trouxe até aqui foi Hegel, Kollontai e Alberto Caeiro. Sem os registros desses de quem me embebi, eu teria sucumbido à ilusão do mundo. Sentiria a alegria triste de uma vitória fantasiosa, culparia os objetos pontiagudos por terem me feito sangrar, angariaria um bilhete para a primeira classe, onde ficam aqueles que desconhecem os fragmentos das rochas e o seu inexorável caminho até o mar. Mas eu apenas cheguei aqui com três frases, que são para mim a textura de minhas células:
1 - "(...) sou do tamanho do que vejo/E não do tamanho da minha altura" - (sétimo poema de Alberto Caeiro)
2 - "(...) nós poderíamos ter produzido e alcançado muito mais, caso nossas energias não tivessem sido fragmentadas na eterna luta com nossos egos (...) - ( "Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada", de Alexandra Kollontai)
3 - "(...) só a reflexão em si mesmo no seu ser-Outro, é que são o verdadeiro. (...) O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo (...) - ("Fenomenologia do Espírito", de Friedrich Hegel)
Viu, Bernardo Soares, vim me alimentando dessas reflexões para estar aqui um pouco menos surrada do que poderia estar caso eu estivesse caolha para os desafios do tempo. Os meus dois olhos estavam abertos para a voragem dos acontecimentos, os meus ouvidos estavam sensíveis para a toada dos pássaros quando estes anunciaram a tempestade, o meu corpo inteiro era prenúncio de um vir-a-ser versado no perdão. Todas essas fissuras que ostentam de simplicidade o meu vestido e essa minha sandália em frangalhos entregam os percursos que trilhei, as colinas em que senti frio e fome, os abrigos feitos de cartas de baralho que um sopro colocou abaixo, os remendos no bordado são indícios de que desde os meus quatorze anos eu tenho me perdoado.
Sei que não chegaria a esse apeadeiro se estivesse bem vestida e com uma história repleta de caprichos daqueles que vivem uma vida fictícia. Estou inteira feita de frangalhos, porque são as tramas da realidade que me trouxeram aqui: ao mesmo apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe, e não quero ser nada além de alguém que sabe onde está e porque se veste como se veste.
Tudo bem ser apenas um ajudante de guarda-livros, Bernardo Soares.
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