Postagens

Ode à loucura ou ao tarot

Antes de tudo era o verbo. Não, não era não.  Antes de tudo era o nada. A carta de número zero do torot: o Louco. Antes de tudo era a loucura. Antes de tudo era o que a gente queria e pronto e acabou e pimba.  Antes de tudo era o sem nome. Sem documento. Sem cartão de crédito bloqueado e boleto vencido. Antes de tudo apenas a possibilidade, pois que o nada é a possibilidade de tudo. Antes de tudo o nada possível. O impossível. Antes de tudo todas as quimeras. Antes de tudo o ser sem fim nem início. Antes de tudo o círculo. Antes de tudo o silêncio do fim que ainda não começou mas se prevê.  Silêncio antes de  tudo.  Silêncio após tudo. Antes de tudo era o zero. Antes do zero era o vinte e um. Depois do vinte e um, o zero. O zero O zero O zero Para sempre o zero. Sejamos o zero e seremos tudo.

Eu não nasci no dia do meu nascimento

Eu não nasci no dia do meu nascimento. Nasci aos dois minutos e quatro segundos de uma canção de Geraldo Azevedo. Explico. Embora eu ache que ninguém explica um parto. Parir é um verbo que pode até ser transitivo ou intransitivo — mas nunca explicável. Eu não fui parida pela minha mãe. Não fui não.Nascer do útero é coisa do mundo dos vivos demais, dos racionais demais, dos chatos demais. Eu nasci mesmo foi aos dezenove anos, depois de encontrar o amor e dançar com ele em um salão na Rua Cardeal Arco Verde, em São Paulo. Sim, eu dei uma sorte dessas. Novinha, o reconheci. O amor. E foi ele quem me pariu. Meu parto se deu numa pista de dança de um lugar que já não existe mais — e que eu nunca, em vida alguma, consegui esquecer que um dia existiu. Eu ainda estava em gestação na fila de uma casa noturna que tocava forró pé-de-serra. E não estava sozinha. Duas amigas esperavam comigo a casa abrir.  Era noite. E minha pele ainda brilhava como meus olhos castanhos e as luzes da cidade. O ...

algoritmos literários

por dores nas costas me alonguei na sala em que vi Pessoa de ponta cabeça: obra poética IV: poemas de Álvaro de Campos após o acaso da rapariga loira, em um outro verso de um outro poema também do ano da quebra da Bolsa, li o nome de William Blake e também quis ter como ele e como Álvaro  e como Pessoa a contiguidade dos anjos fui atrás da rosa doente e achei o verme que me corria as costas por que me alonguei na sala onde vi Pessoa.

O que acontece quando você sai das redes sociais?

Ainda não virei uma monja (mas quase) Onze graus. E nenhuma possibilidade da neblina se dissipar amanhã. Essas são as únicas notificações que aparecem na tela do meu celular desde que, duas semanas atrás, deletei todas as redes sociais. Restaram o aplicativo do banco, o Google Maps (essencial para não me perder na vida real) e o WhatsApp, que mantenho por obrigação moral-profissional e por causa dos grupos da escola, no qual se debate de tudo — menos o calendário letivo. Finalizei o  Livro do Desassossego , a série Pulse , a curiosidade de gente que não gosta de mim de verdade e as respostas repetitivas que dei para todos aqueles que me procuraram pra saber como eu estava. Como se sair das redes sociais fosse um sintoma depressivo e não, veja bem, a alta do diagnóstico. Se eu estou bem? Tomei a pílula vermelha. Estou lúcida. Saí da esquizofrenia coletiva. Sim, porque o problema da esquizofrenia não é o outro — nunca foi . A doença se instala quando a pessoa passa a viver e se comp...

A primeira declaração de amor

Depois de muita insistência, dona Cícera tinha vencido minha mãe. Eu iria ao passeio junto à turma da rua. Estava oficialmente autorizada a ir a um programa de auditório do Canal 9, TV Manchete — que, sejamos honestos, nem a própria Manchete assistia. A ideia era dar uma força para audiência, bater palmas, gritar quando mandassem e parecer feliz com prêmios que ninguém ganhava de verdade. Minha mãe, desconfiada, achava que alguém podia me sequestrar ao vivo na televisão. Ou, o que era mais provável, que eu pudesse não obedecer alguma ordem, porque, você sabe, né, Ciça, a Fernanda é uma menina difícil, nunca faz o que não quer.  — Filha, vem cá, você quer mesmo ir a esse programa?   — Quero. Tá todo mundo indo. Fui. Com publicidade gratuita de um refrigerante que ganhamos por estar lá e mais um lanchinho no intervalo se aplaudíssemos os convidados entrevistados de pé. E entre um intervalo e outro, a filha da vizinha, minha amiga de rua, num repente como quem vê uma apariçã...

Um senhor muito velho de asas enormes

Em uma pilha de livros que me desafiavam a organizá-los na estante da escola, um deles tinha mais pó que o habitual pelo tempo em que estava ali esperando um destino mais confortável. Passei a mão sobre a capa para afastar a densa crosta de poeira suja e, imediatamente, meus olhos se detiveram na imagem de uma asa nas costas de um velho. Depois veio o título longo. E, então, um nome que era quase uma criança pedindo comida no farol: Gabriel García Márquez. O mestre do realismo mágico tem um longo relacionamento comigo. E, em conjunção com Júpiter, Sol e Lua Nova em Câncer, a possibilidade de eu conduzir as minhas leituras para a memória dos meus primeiros contatos com a boa literatura seria quase inevitável.  Mas relutei.  Já estava terminando um de Pessoa e ainda carregava outro de contos mitológicos. Muitos livros para levar na mochila, uma baldeação de metrô para fazer e dois ônibus até chegar em casa. Separei-o para guardá-lo na estante de contos. Quem sabe lê-lo em outro ...

Dia 2 - 4g a menos e um cachecol listrado

Já era inverno e meu filho precisava de um cachecol xadrez para a festa junina. O sol estava tão bonito que resolvemos ir caminhando até o centro comercial, a uns três quilômetros de casa. Assim que virei a chave da porta, minhas mãos foram até o bolso tentando me certificar de que eu estava levando o celular. E sim, estava. Incrível como eu não me lembrava de tê-lo pego. Meu corpo ainda agia no modo automático como se a minha mente ainda não tivesse feito o download da minha nova versão:  "Ela não tem mais motivos para levar o celular. Ela não quer mais fotografar uma formiga carregando folhas. Ela não espera mais ansiosa por uma mensagem aleatória que possa mudar sua vida em três segundos. Ela só quer, veja bem, estar aqui e agora". Virei a chave no trinco de novo. Dessa vez, para abrir a porta e deixar o celular lá dentro. Saí ao sol em busca de um cachecol xadrez, ar fresco para curar minha rinite alérgica e, quem sabe, uma fila de formigas carregando folhas. Sem  intençã...