Um senhor muito velho de asas enormes
Em uma pilha de livros que me desafiavam a organizá-los na estante da escola, um deles tinha mais pó que o habitual pelo tempo em que estava ali esperando um destino mais confortável. Passei a mão sobre a capa para afastar a densa crosta de poeira suja e, imediatamente, meus olhos se detiveram na imagem de uma asa nas costas de um velho. Depois veio o título longo. E, então, um nome que era quase uma criança pedindo comida no farol: Gabriel García Márquez.
O mestre do realismo mágico tem um longo relacionamento comigo. E, em conjunção com Júpiter, Sol e Lua Nova em Câncer, a possibilidade de eu conduzir as minhas leituras para a memória dos meus primeiros contatos com a boa literatura seria quase inevitável.
Mas relutei.
Já estava terminando um de Pessoa e ainda carregava outro de contos mitológicos. Muitos livros para levar na mochila, uma baldeação de metrô para fazer e dois ônibus até chegar em casa.
Separei-o para guardá-lo na estante de contos. Quem sabe lê-lo em outro momento. E então passei a limpar os outros livros, organizando tudo em gêneros literários — até me deparar com outro exemplar do mesmo. A prefeitura havia enviado dois.
Um velho. Com Asas. Enormes.
Peguei o mesmo título na mão. E então entendi: é o livro que escolhe o leitor, não o contrário.
Eu havia sido escolhida por "Um senhor muito velho com umas asas enormes". Não tive saída. Teria de lê-lo ou então não dormiria.
Ainda na volta para casa, matei a leitura do conto, com ilustrações incríveis de Carme Solé Vendrell (recomendo a edição da Record). E me tornei mais mística do que a natureza me proveu. Existiam anjos, sim. E eles eram velhos. E não tinham dentes. E atolavam no barro quando o pouso saía desgovernado.
E o que eles diziam?
Nada.
E o que eles faziam?
Nada. Ou coisas completamente diferentes do esperado. Como escrever crônicas sobre uma professora que eles leram no metrô enquanto a acompanhavam até em casa. Sim, o velho de asas enormes me leu. Porque essa não é uma crônica sobre a história de um livro do meu escritor favorito. Essa é a história de um dia em que um livro me viu exausta tentando não parecer exausta.
Lá está uma professora prestes a me levar para casa.
Parece cansada. Ou seria brava?
Parece mística. Ou seria lúcida?
Tem Plutão em Escorpião, além do Sol e outros planetas.
Isso só pode querer dizer que ela vai, sim, me levar para casa. Tem um jeito de olhar para o infinito como quem voa ao contrário, para as profundezas do absoluto e inexato. É muito provável que vá com a minha cara de impossibilidade.
Não falei? Ela me colocou na mochila.
Agora ela vai se transformar muitas vezes até o fim do livro. Durante o trajeto, vai começar sua transmutação. Vamos, garota, me leia!
Começou! Eu sabia que ela não ia esperar o breu da noite, o abajur aceso e o incenso de mirra.
Assim que eu gosto. Já leu três páginas. Está começando a ficar pronta para ir até o fundo do poço e achar uma mola.
Na página dezenove, ela vai saltar para fora do mundo e depois voltar ao bairro da Consolação só para entender por que esse lugar tem um nome de gente com passado triste. Vai descobrir. Vai sim.
Chegou à pagina vinte e três e passou a entender porque sente tanto tudo isso no vagão lotado. Uma confusão entre o que lê, entende e sente.
Gosto dela, apesar de ser fisicamente estranha. Tem estatura abaixo da média. Sonhos acima da racionalidade humana. Está sorrindo para mim, que sou um velho de asas desenhado num papel. Como pode ser tão lúcida para o impossível?
Está pedindo para eu sair das páginas.
Agora não posso.
Você precisa chegar à última página, quando sobrevoo as casas.
Precisa continuar acreditando nas pessoas, mesmo que este velho aqui esteja mostrando que elas são bem diferentes do que você imagina.
Ainda estou preso em um galinheiro e cercado por um alambrado, não está vendo?
Viu o que eles fizeram comigo? Imagina o que farão com você — que nem asas tem. Então, fica esperta. Se segura nesse gancho aí.
Ela está me ouvindo. Ela ainda está se segurando com uma mão num dos ganchos feitos para os mais baixos no vagão de metrô.
Está cercada por pessoas maiores que ela.
Como sempre.
Pedindo licença para descer.
Calma. Você está quase lá.
Já saiu da prisão do seu próprio tempo.
Por isso eu vim.
Sou um senhor muito velho com umas asas enormes.
E estou voltando para casa com você.
Respira.
Ainda vão me maltratar bastante nas próximas páginas, mas tudo vai acabar bem no final.
Confia.
Eu vou trocar as asas.
E você também, garota.
Chega a estação dela. Ela desce. Sobe a escada rolante. No piso de cima da estação, vira a última página do livro. Nos despedimos com um suspiro.
Eu acredito que você não é um personagem, ela me diz.
Claro que sou, respondo com silêncio.
Ela não acredita. Pois é, além de tudo, teimosa.
Então, sobrevoo acima da avenida e viro um ponto no horizonte, para onde ela olha e sorri.
Então, sobrevoo acima da avenida e viro um ponto no horizonte, para onde ela olha e sorri.
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