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Um senhor muito velho de asas enormes

Em uma pilha de livros que me desafiavam a organizá-los na estante da escola, um deles tinha mais pó que o habitual pelo tempo em que estava ali esperando um destino mais confortável. Passei a mão sobre a capa para afastar a densa crosta de poeira suja e, imediatamente, meus olhos se detiveram na imagem de uma asa nas costas de um velho. Depois veio o título longo. E, então, um nome que era quase uma criança pedindo comida no farol: Gabriel García Márquez. O mestre do realismo mágico tem um longo relacionamento comigo. E, em conjunção com Júpiter, Sol e Lua Nova em Câncer, a possibilidade de eu conduzir as minhas leituras para a memória dos meus primeiros contatos com a boa literatura seria quase inevitável.  Mas relutei.  Já estava terminando um de Pessoa e ainda carregava outro de contos mitológicos. Muitos livros para levar na mochila, uma baldeação de metrô para fazer e dois ônibus até chegar em casa. Separei-o para guardá-lo na estante de contos. Quem sabe lê-lo em outro ...

No final do beco um homem toca Cartola

Cecília caminhava por uma viela escondida entre o prédio de uma faculdade de alto padrão e um restaurante fadado a vender marmitas aos professores da universidade. Não queria rimar a vida com o seu andarilho nem acreditar para sempre que esta mesma vida seria também um moinho assim como todas as sonoridades dos parágrafos que surgiam dos encontros com seus pretendentes. Todos os olhares que cruzavam com os dela davam num verso mesmo quando não davam em amor nem sexo. Era ao lado de um pequeno mercado de peixes, reduzido a ser pequeno porque existem os grandes, que morava uma das suas maiores preocupações: uma prima adormecia por mais horas que permitia o relógio por não suportar saber que a durabilidade é um fato para os enlatados e para a sua relação com as pessoas. Era preciso acordá-la para, inexoravelmente, fazê-la recordar a ausência da mãe, do pai que sequer conhecera e agora de um filho fruto de um amor que também resolvera partir. Quatro ausências presentes na penumbra do quart...