No final do beco um homem toca Cartola

Cecília caminhava por uma viela escondida entre o prédio de uma faculdade de alto padrão e um restaurante fadado a vender marmitas aos professores da universidade. Não queria rimar a vida com o seu andarilho nem acreditar para sempre que esta mesma vida seria também um moinho assim como todas as sonoridades dos parágrafos que surgiam dos encontros com seus pretendentes. Todos os olhares que cruzavam com os dela davam num verso mesmo quando não davam em amor nem sexo.

Era ao lado de um pequeno mercado de peixes, reduzido a ser pequeno porque existem os grandes, que morava uma das suas maiores preocupações: uma prima adormecia por mais horas que permitia o relógio por não suportar saber que a durabilidade é um fato para os enlatados e para a sua relação com as pessoas. Era preciso acordá-la para, inexoravelmente, fazê-la recordar a ausência da mãe, do pai que sequer conhecera e agora de um filho fruto de um amor que também resolvera partir. Quatro ausências presentes na penumbra do quarto catorze, o número um seguido de quatro tenazes fantasmas, pois o acaso é somente uma roupagem, um disfarce de jovem que vez ou outra usa o veterano Destino.   

"Carra e olhe o céu, que o Sol vem trazer bom dia". Cartola. Era um trecho de Cartola que fazia Cecília ser capaz de continuar a vereda por aquela escuridão, consequência da tristeza de uma só pessoa no mundo, supunha ela enquanto construía mentalmente o  seu próximo poema, este que nasceria, decerto, do encontro com esse indivíduo que padece secretamente em algum canto da cidade. 

Alguém chora num ponto escondido daquela megalópole por um motivo mais secreto do que a origem do Universo e não era a sua prima, ruminava Cecília enquanto seguia até o fim do beco. Alguém chora em algum recinto escuso do mundo, 

daí a viela, 

daí o pretume do asfalto, 

o breu entre a faculdade e o restaurante, 

o pouco do mínimo que nenhum governo reservou aos mais humildes, 

o baixo salário dos professores, 

o verde musgo das algas sendo vendidas no mercado de peixes,

a crueldade das palavras de Hansu na página sessenta e dois de "Pachinko", 

a nunca ida de sua prima ao teatro, 

a lágrima por quatro ausências que lhe arremessam para um suicídio capaz de ser a única herança de Cecília.

Tudo isso advindo do mistério de uma tristeza por quem nunca ninguém se interessou por desvendar. A tempestade, se pudesse ser concreta e ininterrupta, seria a imagem daquele vilarejo no qual Cecília se metia para não herdar de sua prima a ausência da luz. 

Era preciso impedir que sua prima dormisse para sempre. Ao mesmo tempo era necessário criar um poema para um possível epitáfio se seus passos não alcançasse o limiar do beco a tempo de vencer os ventos soturnos do lugar. Ventos esses que também a conduziam para os versos desiludidos de Cartola que, apesar de contrariar todas as esperanças românticas de eternidade, contradiziam-se e pareciam emergir da janela da última casa da viela desde antes da criação do mundo e até o dia em que se puder ver a olho nu o azul turquesa  das Plêiades no céu noturno. Exatamente daquela janela colada à de sua prima surgia a voz aveludada de um homem que resolveu acontecer na vida de Cecília, como se os desiludidos do mundo se encontrassem todos numa mesma vila ou dentro duma mesma canção. Eram vizinhos: aquela que daqui dois dias se suicidaria e deixaria à Cecília um quarto, um banheiro e o manto de penumbra, e aquele que ainda não sabia, mas também morreria, talvez pela segunda vez, no exato momento em que seria ato os versos de um refrão de Cartola: 

"Fita os meus olhos, vê como eles falam..."

Ela fitou. E eles falaram. Falaram o suficiente para causar um apagamento nos pensamentos de Cecília, já que é isso que fazem os olhos que ao serem fitados dão para falar. Ela apagou os pensamentos. Anoiteceu os batimentos cardíacos. Visualizou o conglomerado de estrelas das estrelas dentro do céu profundo. Quase chorou como todos os desiludidos do mundo. Adiantou a sua morte para um dia em meados de janeiro: a sua primeira morte de amor. E ele, que tocava Cartola por força de tudo que não fora antes, morreu duas vezes, porque dizem os tétricos do lugar que é secreto o motivo do desalento que lhe havia levado a alma dez anos antes, só sabiam que, desde que aquele homem morava ali, tocava Cartola como quem morre de amor todo dia.

Cecília não sabia porque passava a querer desvendar o motivo da primeira morte do homem que vivia a morrer de amor. Julgava, porque era boa, que conhecer e registrar uma dor tão grande poderia fazer viver por mais tempo todos os amores que a história parece querer apagar. Cecília não tinha aptidão para ser indiferente aos arrebatamentos prosaicos. Para ela tudo fazia parte do grande arco da história. Amar aquele homem era conhecer a sua primeira morte. Ouvir a sua desilusão era sua prova de amor. Salvar o mundo era desvendar a dor do homem que no final do beco tocava Cartola.

Dois dias adiante e sua prima não acordaria mais. Um dia depois e Cecília passaria a saber que desacontecer também era um acontecimento. E desvendava o segredo da descrença daquele homem: ele lhe dizia que em cada esquina caia um pouco mais a sua vida, porque apenas existia para fazer não se lembrar dela. Era urgente desacontecer os ombros de uma mulher. Todo o resto já havia apagado, mas ainda lhe faltava esquecer os ombros. Eram os ombros de uma mulher o pai e a mãe das dores de toda gente. 

Cecília desabotoou apenas um botão do vestido acinzentado de alças finas para enxugar com ombros novos o pranto do homem que lacrimejava notas musicais. Ele cantou e morreu de amor em seu colo por duas noites inteiras. Por duas noites inteiras toda a vila e as pessoas vivas do mundo estiveram alegres por conta do encontro daquele homem com os ombros de Cecília, todos festejaram sem saber a origem secreta dos seus contentamentos. Até chegar meados de janeiro e a verdade de Cecília sobre inícios também irromper: os inícios também acabam porque inícios são finais. Acontecer é desacontecer. Cecília também também desaconteceu.

Os astrônomos  estimam que o homem tocará Cartola por mais 250 milhões de anos. O tempo previsto para o aglomerado estelar na constelação de Touro, as Plêiades, se dispersar.

Cecília morrerá muito antes. Mas nos livros das histórias que nunca se contam estarão seus ombros.

***

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