O que acontece quando você sai das redes sociais?
Ainda não virei uma monja (mas quase)
Onze graus. E nenhuma possibilidade da neblina se dissipar amanhã.
Essas são as únicas notificações que aparecem na tela do meu celular desde que, duas semanas atrás, deletei todas as redes sociais. Restaram o aplicativo do banco, o Google Maps (essencial para não me perder na vida real) e o WhatsApp, que mantenho por obrigação moral-profissional e por causa dos grupos da escola, no qual se debate de tudo — menos o calendário letivo.
Finalizei o Livro do Desassossego, a série Pulse, a curiosidade de gente que não gosta de mim de verdade e as respostas repetitivas que dei para todos aqueles que me procuraram pra saber como eu estava. Como se sair das redes sociais fosse um sintoma depressivo e não, veja bem, a alta do diagnóstico.
Se eu estou bem?
Tomei a pílula vermelha. Estou lúcida. Saí da esquizofrenia coletiva. Sim, porque o problema da esquizofrenia não é o outro — nunca foi. A doença se instala quando a pessoa passa a viver e se comportar como quem acredita ser aquilo que inventou. E eu estava lá. Completamente esquizofrênica. Com um pouco mais de oitocentos seguidores das minhas viagens de um dia, das minhas danças de sábado, dos sets de filmagem, dos trechos das minhas aulas. Imagina alguém acreditar que é o recorte dos próprios dias? E mais: que os coraçõezinhos ou directs determinam se o seu papel está sendo bem desempenhado no grande palco de… nada?
Uma esquizofrenia compartilhada, claro. Porque cada um está acreditando no seu personagem que, por sua vez, se comporta em relação aos demais, que também são personagens, como quem acredita que o outro não é um personagem e pior: como quem acredita que não está, ele mesmo, sendo também um personagem. Confuso. Confuso. Repetitivo. Eu sei. É que com a Literatura a gente aprende a fazer do texto o próprio conteúdo. Em suma: as redes sociais são um desfile de egos performando para outros egos que fingem que não estão performando. Saca? É essa a conclusão à que cheguei.
Um personagem para ganhar likes. É isso que todos são nas redes sociais, mesmo que usem eufemismos para justificar suas postagens como: "Imagina, Fernanda, a gente só posta para compartilhar mesmo". Hahahaha! Ok. Eu também já estive aí. Eu também já acreditei na história que eu mesma contei para mim pra me convencer de que o que eu fazia não era carência disfarçada de conteúdo.
Interações. Corações. Mensagens. Nossos desejos de ser outro escancarados em praça pública. Nossas frustrações, ilusões, ciúmes doentios — tudo lá, em 4K, como se fosse vitrine de consultório psiquiátrico.
Es-qui-zo-fre-nia coletiva. Todo mundo acreditando no seu papel.
E o que acontece quando dois esquizofrênicos se encontram fora do ambiente narrativo em que são personagens?
Ah! Isso daria outro post!
Mas voltemos aqui ao título do post: o que acontece quando você sai das redes sociais?
Talvez você fique com suas confabulações restritas a si mesma. Ou aos poucos amigos que ainda têm coragem de olhar nos seus olhos e dizer: “Fernanda, isso é um delírio”. Eles podem fazer isso? Podem. Estando na rede? Hm... difícil. Porque lá, eles também estão delirando — cada um à sua maneira, com sua própria curadoria emocional.
Com isso não quero dizer que a gente fique menos doida aqui fora. Não, não. Longe disso.
Continuo dançando Dancing Barefoot no meio da sala como se tivesse plateia. Fazendo chocolate quente com maisena e discutindo filosofia existencial com meus gatos enquanto o aroma inunda a cozinha. Comprando vasos de gerânio e me perguntando quando foi a última vez que um homem quis saber dos meus gostos pessoais sem segundas intenções ou emojis suspeitos.
Ouvindo um senhor japonês do Orquidário dizer: “É a segunda vez essa semana que você aparece por aqui”. É a segunda sim, senhor. Porque o senhor não estava ontem, quando vim buscar fertilizantes. Para as plantas? Para mim? Para minha vontade de terminar um romance ou um livro de contos, ganhar um prêmio literário, correr na praia e viver de paisagem e montanhas? Tudo isso. Minhas fabulações não compartilhadas.
Tô viva. Lendo Dostoiévski e entendendo perfeitamente os motivos de Raskólnikov. Ele sim é um personagem que sabe que é personagem. E se somar os motivos dele com os meus, talvez eu tivesse feito o que ele fez bem antes da página oitenta e cinco.
E sim, também ando assistindo a séries bobinhas como Virgin River pra equilibrar as indignações de viver com o mísero salário de professora. Ou eu faço isso ou viro uma “monomaníaca excessivamente compenetrada”, com sono, tédio e uma fixação repentina por literatura russa.
No mais, aqui fora a gente também comete erros ao tentar cumprir promessas que fez a si mesma. Até as frustrações são mais honestas. E olha que elas doem! Mas doem num lugar palpável, não nesse limbo esquisito de inveja mal processada por stories alheios.
Se for pra sofrer, por favor, sofram decentemente. De cara lavada e com realidades sem curtidas. Ser triste por motivos reais, com contexto e tudo, é muito mais digno do que entrar em paranoia porque sua ex-colega do ensino médio — aquela que colava de você nas provas de biologia — virou médica e está “vivendo o melhor momento da vida” no deserto do Atacama.
A vida, muitas vezes, já é suficientemente uma merda aqui fora pra ser também duplamente frustrante com as redes sociais esfregando ilusões na nossa cara, né? O tempo que eu usava rolando o feed é o mesmo tempo que agora está sendo muito bem usado para cozinhar meus próprios alimentos e me exercitar com a mesma regularidade com que eu nunca perdia o story do crush. É sobre isso.
Aqui fora, as comparações não desaparecem. Mas diminuem — e muito. E a vida, com todas as suas esquisitices e incoerências, volta a ter um ritmo menos editado.
Sigo tropeçando nas minhas próprias contradições. No entanto, cumpri uma promessa que, para mim, faz todo o sentido: não compartilhar meus delírios em fotos nem em reels.
Só em texto.
Passeando pelo Google em busca de blogs aleatórios, encontrei o seu e, despretensiosamente, comecei a ler… Então, passei bons 45 minutos explorando as coisas que você julgou interessante expressar e me encantei com a sua forma de viver.
ResponderExcluirJá tentei sair das redes sociais, porque realmente é um lugar onde muitas pessoas expõem uma vida que não têm e julgam as outras pelas aparências.
Sinceramente, me senti inspirada a deletar tudo e passar a viver mais a vida.
Achei linda a sua forma de entender o mundo e a sensibilidade que você tem ao descrever as coisas — e a si mesma. Num mundo cheio de pessoas sempre correndo, encontrar alguém que valoriza viver com mais calma é como encontrar um diamante.
Não sei se em algum momento você vai ler este comentário, mas espero que volte ao blog. Mesmo que você não viva pelas redes sociais, seria maravilhoso poder ler mais dos seus textos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirOlha só, que surpresa boa por aqui. Fiquei surpresa com sua mensagem porque já estava desacreditada da ideia de ainda existirem leitores de blogs. E mais surpresa ainda pelo tempo que vc passou por aqui. Mulher, você me leu mesmo! Que massa!. As redes sociais são muito mais dinâmicas e tentadoras do que nossos textos e profundidades, não é mesmo? Vou acompanhar o que vc tem a dizer também. E obrigada pelo retorno. Tô tentando manter o blog na medida do impossível de uma sociedade extremamente cruel com quem escreve.
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