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Mostrando postagens com o rótulo #Crônicas

O que acontece quando você sai das redes sociais?

Ainda não virei uma monja (mas quase) Onze graus. E nenhuma possibilidade da neblina se dissipar amanhã. Essas são as únicas notificações que aparecem na tela do meu celular desde que, duas semanas atrás, deletei todas as redes sociais. Restaram o aplicativo do banco, o Google Maps (essencial para não me perder na vida real) e o WhatsApp, que mantenho por obrigação moral-profissional e por causa dos grupos da escola, no qual se debate de tudo — menos o calendário letivo. Finalizei o  Livro do Desassossego , a série Pulse , a curiosidade de gente que não gosta de mim de verdade e as respostas repetitivas que dei para todos aqueles que me procuraram pra saber como eu estava. Como se sair das redes sociais fosse um sintoma depressivo e não, veja bem, a alta do diagnóstico. Se eu estou bem? Tomei a pílula vermelha. Estou lúcida. Saí da esquizofrenia coletiva. Sim, porque o problema da esquizofrenia não é o outro — nunca foi . A doença se instala quando a pessoa passa a viver e se comp...

A primeira declaração de amor

Depois de muita insistência, dona Cícera tinha vencido minha mãe. Eu iria ao passeio junto à turma da rua. Estava oficialmente autorizada a ir a um programa de auditório do Canal 9, TV Manchete — que, sejamos honestos, nem a própria Manchete assistia. A ideia era dar uma força para audiência, bater palmas, gritar quando mandassem e parecer feliz com prêmios que ninguém ganhava de verdade. Minha mãe, desconfiada, achava que alguém podia me sequestrar ao vivo na televisão. Ou, o que era mais provável, que eu pudesse não obedecer alguma ordem, porque, você sabe, né, Ciça, a Fernanda é uma menina difícil, nunca faz o que não quer.  — Filha, vem cá, você quer mesmo ir a esse programa?   — Quero. Tá todo mundo indo. Fui. Com publicidade gratuita de um refrigerante que ganhamos por estar lá e mais um lanchinho no intervalo se aplaudíssemos os convidados entrevistados de pé. E entre um intervalo e outro, a filha da vizinha, minha amiga de rua, num repente como quem vê uma apariçã...

Um senhor muito velho de asas enormes

Em uma pilha de livros que me desafiavam a organizá-los na estante da escola, um deles tinha mais pó que o habitual pelo tempo em que estava ali esperando um destino mais confortável. Passei a mão sobre a capa para afastar a densa crosta de poeira suja e, imediatamente, meus olhos se detiveram na imagem de uma asa nas costas de um velho. Depois veio o título longo. E, então, um nome que era quase uma criança pedindo comida no farol: Gabriel García Márquez. O mestre do realismo mágico tem um longo relacionamento comigo. E, em conjunção com Júpiter, Sol e Lua Nova em Câncer, a possibilidade de eu conduzir as minhas leituras para a memória dos meus primeiros contatos com a boa literatura seria quase inevitável.  Mas relutei.  Já estava terminando um de Pessoa e ainda carregava outro de contos mitológicos. Muitos livros para levar na mochila, uma baldeação de metrô para fazer e dois ônibus até chegar em casa. Separei-o para guardá-lo na estante de contos. Quem sabe lê-lo em outro ...

Dia 2 - 4g a menos e um cachecol listrado

Já era inverno e meu filho precisava de um cachecol xadrez para a festa junina. O sol estava tão bonito que resolvemos ir caminhando até o centro comercial, a uns três quilômetros de casa. Assim que virei a chave da porta, minhas mãos foram até o bolso tentando me certificar de que eu estava levando o celular. E sim, estava. Incrível como eu não me lembrava de tê-lo pego. Meu corpo ainda agia no modo automático como se a minha mente ainda não tivesse feito o download da minha nova versão:  "Ela não tem mais motivos para levar o celular. Ela não quer mais fotografar uma formiga carregando folhas. Ela não espera mais ansiosa por uma mensagem aleatória que possa mudar sua vida em três segundos. Ela só quer, veja bem, estar aqui e agora". Virei a chave no trinco de novo. Dessa vez, para abrir a porta e deixar o celular lá dentro. Saí ao sol em busca de um cachecol xadrez, ar fresco para curar minha rinite alérgica e, quem sabe, uma fila de formigas carregando folhas. Sem  intençã...

Dia 1 - Primeiro dia sem redes sociais

É como se meu polegar tivesse vontade própria.  Acordei por volta das oito horas da manhã no feriado de 19 de junho, meu primeiro dia oficialmente fora das redes. Olhei para o teto do quarto, onde meus adesivos de planetas ainda brilhavam e, adestradamente, virei para o lado em que deixo o celular. Meu dedo, autônomo e inquieto, desbloqueou a tela e foi direto para o ícone... que não estava mais lá.  E eu fiquei ali. Olhando para a tela vazia, me perguntando: o que eu queria ver mesmo? Sim, eu tinha deletado. Não foi desinstalar, dar um tempo ou fazer uma “limpa no feed pra focar em mim”. Eu tinha deletado   o Instagram . De-le-ta-do. Largado o  like.  Inviabilizado o  foguinho . E feito o mesmo com o Facebook e o X, redes que eu nem usava tanto, mas que se davam o luxo de me importunar com notificações de gente que sabe menos de mim do que minhas cartas de Tarô. E agora estou aqui: na vida tangível e real. Aparentemente intacta. Ainda me alimento, respiro ...

E você, professora, o que fez nas férias?

Talvez eu devesse mentir. Quem sabe dar uma resposta evasiva e escapar correndo para o banheiro mais próximo. Ou inventar uma viagem tão fantástica que não teria sobrado tempo para tirar fotos. Talvez um novo namorado de mentira, daqueles de tirar o fôlego e que possa justificar perfeitamente minhas olheiras de cansaço. Qualquer coisa para me livrar logo da mais comum e aterrorizante pergunta feita pelos professores na primeira reunião pedagógica do primeiro dia do segundo semestre: "E você, professora, o que fez nas férias?". Toda professora com um salário acima do padrão QPE-14A foi para alguma montanha tão íngreme que nem o mais habilidoso aluno das aulas de educação física conseguiria escalar. Aquelas que não viajaram para um lugar muito conhecido por não ter crianças e adolescentes, visitaram exposições da própria cidade, famosas por serem pouco frequentadas por... crianças e adolescentes. Outras preferiram conhecer uma padaria diferente a cada manhã e postaram fotos ...

Os cigarros que não fumei

Então quando termina a partida e meu time sai de campo carregando o peso da derrota de ter perdido também um pênalti, meus amigos se retiram para um canto afastado do churrasco e acendem seus cigarros. Eu fico, eu sempre fico. Ali, no lugar em que as pessoas que não fumam ficam. Com seus dilemas sem atalhos. Pensando coisas que só as pessoas que não fumam sabem o que é assim como só as pessoas que fumam sabem o que pensam quando fumam após a derrota do seu time. Talvez esse cigarro que não fumo pudesse ter feito a derrota do meu time doer menos, pois eu, que não fumo, sinto a dor dos que não tragam. Então quando minha mãe me liga para me contar sobre um absurdo qualquer do condomínio em que mora, eu me retiro para  algum canto discreto de algum lugar em que eu esteja. Não para a área dos fumantes, para a área dos fumantes nunca, porque eu não fumo. Dou conselhos a minha mãe sem tragar nenhuma resposta ou solução que faça uma fumaça além da minha própria existência de pessoa que não...

A casa amarela

            ( Repostando um dos meus textos favoritos, presente no meu livro "Miscelânea")            Tentei buscar fotos e não encontrei muitas. Levaram meu celular e com ele boa parte das lembranças da casa amarela: a primeira casa na qual morei com meu filho. Antiga. Pequena. De aluguel brando. Com muita reforma por fazer. Varal sempre remendado. Um dos muros ainda na argamassa. Dois vizinhos de corredor. E o que mais me importava: a cor e o sol.              A casa era toda pintada de amarelo e os raios de sol entravam pelas janelas amplas e altas, daquelas que a gente abre para fora e fica pensando o que sente por dentro a pessoa que se dedica a fabricar janelas. Gente que bota na mão a responsabilidade de lembrar o outro de que a vida acontece lá fora.              A minha era a casa do meio. A de número dois. E moravam nela, p...

"Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"

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Descalça, os meus primeiros passos foram dados no décimo andar de um prédio antigo na Avenida da Consolação. De lá eu soube do seu pendor para uma nebulosa: com sua imensa nuvem de gás e poeira, São Paulo é uma cidade que, ironicamente, gera estrelas de suas próprias contradições. É por isso que muita gente quando chega aqui, não entende nada mesmo, Caetano. Só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João e olhe lá. Mas entendi precocemente e sem modéstia nenhuma que a matéria de que é feito esse lugar também foi capaz de gerar em mim fatos significativamente tangíveis. São Paulo nos dá forma, nos concretiza. Volto a essa cidade com a certeza de que é aqui que habita o aço que reveste meu peito e que é aqui também que as estrelas rompem o próprio material que as cerca, o que, mais uma vez, é irônico, porque foi dessa substância que se originaram. São Paulo é uma nebulosa. Nós, paulistanos, somos uma ironia estrelar. A Praça Roosevelt me deu meu primeiro machucado no joelho e na alma. F...

A Bernardo Soares

A um apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe, sozinha, completamente sozinha, aqui também cheguei, Bernardo Soares. Sob um vestido roto de cambraia e um sol cálido de um verão que se antecipou e tingiu as marcas de minha sandália sobre meus pés. Na minha mão estava apenas um alforje sem seu cavalo, perdido em alguma quimera do meu passado. Cheguei a esta paragem sozinha. O que sou é a minha bagagem, companhia e recompensa. O botão que deixa inciso o pano acima do meu busto, perdi no caminho. Virou miçanga com que uma criança presenteia sua mãe. A fina linha que tecia o bordado dos meus ombros está presa num graveto de uma árvore no meio da Mata Atlântica, que é o bioma que mais se aproxima em tamanho e diversidade dos percalços que me engendraram. Sim, eu vim maltrapilha e sem nada, porque de onde venho não há matéria de que são feitos os meus sonhos. Não é possível perpetuar os segundos de um riso, então os deixei em uma praia para um casal adolescente encontrar. T...

A finitude dos objetos quebrados

 Já são três xícaras de porcelana branca. Miúdas e órfãs de alça. A primeira de que me lembro partir desintegrou-se durante um acesso de rinite que tive enquanto lavava a louça. O objeto rompeu das minhas mãos como alguém que corre para debaixo de um toldo em busca de proteção em meio a um aguaceiro e trovoadas. A segunda partiu-se após um descuido: não fui capaz de perceber sua fragilidade em sustentar outras xícaras prenhes de passados tristes sobre ela. A terceira despedaçou quando o horizonte que eu almejava eternizar aos trinta e sete anos resolveu atravessar a porta da sala e partir para outras paisagens quando eu ainda tinha trinta e seis. Não sei por que ainda as mantenho aqui. Fraturadas e sem utilidade além de me dizerem todos os dias que as quebrei assim como fraturei relações e não curei histórias estilhaçadas e arraigadas dentro mim, que sou toda como uma de minhas gavetas: forrada à tecido colorido, no entanto, também sem alça. A mesa de cabeceira carente de uma de su...

Se me chamarem, diga que eu saí

Do passado me esqueci No presente me perdi Se me chamarem, Diga que eu saí (Raul Seixas) Numa tarde de baralho com meu filho, resolvi apresentar a ele Raul Seixas. Mas antes de colocar a minha playlist para ele ouvir, usei a tática do grande acontecimento. Jovens se interessam por grandes acontecimentos. Aprendi isso na escola, com meus alunos. Então eu sabia que precisava introduzir Raul a partir da narrativa de uma história marcante. Comecei, portanto, contando para o Pablo sobre a prisão de Raul durante a Ditadura Militar e as torturas que sofreu e que o levaram a entregar Paulo Coelho, seu amigo e coautor de muitas das suas composições. Ele se mostrou interessado, mas não o suficiente para que eu lhe apresentasse "Gita", "Ouro de tolo", "As minas do rei Salomão" e "Cowboy fora da lei", as minhas preferidas de Raulzito. Então disse que, uns anos atrás, eu havia escutado na rádio um depoimento de um homem que dizia ter sido salvo por uma músic...

O que aprendi com Alberto Caeiro

Nessa ultima segunda-feira de outono, eu sou apenas alguém que passa o café enquanto retira as roupas do varal. Nada mais que isso e finda a manhã. Vou até a cozinha e verifico a fervura da água, retorno à varanda, retiro uma camisa, dobro-a com coração de mãe que pede demora e olhar atento, posto-a num banco de espera e volto à cozinha. Observo o derramar da água no pó miudinho e acho graça, mas não penso. Gosto do que vejo, do que sinto, mas não penso sobre o que vejo nem sobre o que sinto. Porque pensar, me ensinou Caeiro, é não ver. E esse texto é sobre a minha salvação, ou melhor, é sobre a salvação de todas as pessoas que assim como eu sentem muito, sorte a nossa: há desenlace para nossas pujanças, o medicamento é a literatura. Apenas ser. Alberto Caeiro, aquele heterônimo* de Fernando Pessoa, sabe?, foi ele o meu terapeuta às duas e meia de uma madrugada gelada, já que não é possível uma consulta particular a essa hora, e a gente, que escreve, tem hora marcada para sofrer: na ma...

Sobre ancestralidade e a mistura do passado com o presente na criação do futuro

(Salve, Evaristo!) Hoje, conversando com minha avó preta (como a gente da família sempre a chamou), ela resolveu me contar algo que nunca tinha me contado antes: o motivo de não ter frequentado a escola. Vó Margarida me disse que seu pai, indígena e (segundo ela) desligado da vida, não registrou nunca ela em cartório algum. Minha vó cresceu inexistente, nas palavras dela. E como não existia, seu pai não tinha como matriculá-la na escola. Vó Margarida existia. Mas não no documento. Não para o Estado. Vó Margarida não existia e por isso não tinha direitos? Ou não tinha direitos e por isso não existia? Só depois de adulta, vó Margarida foi registrar sua existência. Aprendeu apenas a ler, mas diz não saber escrever, pois, nas palavras dela, ler e escrever são coisas diferentes. Vó Margarida lê muito. Disse ainda, no telefone, que teve de levar duas testemunhas no cartório para fazer o primeiro registro dela. Vó Margarida teve que levar duas pessoas para provar que ela existia. Só a presenç...

Eu queria ser um golfinho

Já contei para alguns amigos a história do meu primeiro emprego: fui atendente de caixa de uma loja beeem famosa num shopping beeem famoso! E eles sempre me incentivaram a escrever sobre como consegui o emprego e como pedi demissão. São eles, meus amigos, o grande motivo deste blog existir. Então... Bora lá! Depois de passar por inúmeras dinâmicas nas quais eu mentia — como quando respondi que, se fosse um animal, seria um golfinho, mesmo gostando muito mais dos elefantes —, cheguei à temida última etapa do processo: a entrevista. Foi lá que a gerente me interrogou de pronto: — Diga o pior defeito que você acredita que possui. E eu respondi de pronto, e de cansada daquilo tudo também: — É o ciúme, a posse. Se eu sou a dona de algo, ninguém tasca a mão no que é meu. Ela então continuou: — E se um dia você chegar na loja e der falta de uma caneta sua, o que você faria? — É pra falar a verdade mesmo? — Sim. — Eu não deixaria uma caneta nesta loja, porque escrevo a lápis e aqui não me pare...