Eu queria ser um golfinho
Já contei para alguns amigos a história do meu primeiro emprego: fui atendente de caixa de uma loja beeem famosa num shopping beeem famoso! E eles sempre me incentivaram a escrever sobre como consegui o emprego e como pedi demissão. São eles, meus amigos, o grande motivo deste blog existir.
Então... Bora lá!
Depois de passar por inúmeras dinâmicas nas quais eu mentia — como quando respondi que, se fosse um animal, seria um golfinho, mesmo gostando muito mais dos elefantes —, cheguei à temida última etapa do processo: a entrevista. Foi lá que a gerente me interrogou de pronto:
— Diga o pior defeito que você acredita que possui.
E eu respondi de pronto, e de cansada daquilo tudo também:
— É o ciúme, a posse. Se eu sou a dona de algo, ninguém tasca a mão no que é meu.
Ela então continuou:
— E se um dia você chegar na loja e der falta de uma caneta sua, o que você faria?
— É pra falar a verdade mesmo?
— Sim.
— Eu não deixaria uma caneta nesta loja, porque escrevo a lápis e aqui não me parece um lugar propício para a minha escrita. Mas se eu estivesse usando uma caneta nessa loja... bom, eu também não deixaria minha caneta aqui. Mas se mesmo assim eu estivesse usando uma caneta e a deixasse aqui, também acho que ninguém pegaria a minha caneta, porque ela teria meu nome dentro do plástico, como eu sempre fiz na escola com as minhas canetas. Mas, se mesmo assim alguém a pegasse... eu, enfim... bom, eu... preciso dizer a verdade mesmo?
— Sim, por favor, continue.
— Bom, nós teríamos de fechar a loja até a polícia chegar.
Ela me olhou espantada. Afinal, eu tinha dito que seria um golfinho na dinâmica anterior e estava me mostrando um animal um pouco menos encantador.
— Você faria um boletim de ocorrência por conta de uma caneta?
— Não, não. Eu cometeria um assassinato. A polícia viria para me prender.
— Está contratada. Pode começar amanhã cuidando do dinheiro do caixa com todo esse ciúme que você possui.
E eu virei a pior atendente de caixa do pior emprego que tive na vida.
Mas vou pular a desastrosa experiência que tive nessa profissão para o dia em que resolvi me demitir. Esse sim foi o único dia no qual eu disse a verdade dentro daquela loja. Fui até a gerente e, decidida, falei que não viria mais, assim, de susto. Ela me olhou surpreendida. Queria que eu ficasse, apesar de o meu caixa ter sempre a maior fila daquela filial e de sempre aparecer o segurança junto a uma mulher enlouquecida gritando comigo, porque, muito provavelmente — como acontecia sempre —, eu havia me esquecido de tirar o alarme de alguma peça que ela comprara.
Mesmo assim, a gerente insistia para que eu ficasse, dizendo que eu tinha algumas qualidades e bom humor. Naquele momento, percebi que não era só eu que mentia ali. Ela também fazia isso muito bem. Então, por fim, ela me perguntou o motivo de eu querer ir embora. E eu respondi que não gostava de ser caixa, de fazer contas para outras pessoas enriquecerem, que eu era alguém que escrevia.
Ela baixou os óculos e disse:
— Mas você sabia desde o início que seria caixa, Fernanda.
E eu respondi que sabia que seria caixa, que seria golfinho, que seria assassina, mas que não sabia que teria de ocultar dos clientes os juros absurdos que eles pagariam caso escolhessem parcelar suas compras com o primeiro pagamento caindo em março do ano que vem.
Ela foi assinando os papéis da minha demissão enquanto bufava. Por último, me disse:
— Você vai sair sem nada.
Sim. Saí sem nada.
Apenas com a minha dignidade.
E tem coisa mais valiosa do que a nossa dignidade?
ResponderExcluirSaiu com a sua maior riqueza que e a sua dignidade,algo que ninguém pode tirar!
ResponderExcluirParabéns!