A finitude dos objetos quebrados
Já são três xícaras de porcelana branca. Miúdas e órfãs de alça. A primeira de que me lembro partir desintegrou-se durante um acesso de rinite que tive enquanto lavava a louça. O objeto rompeu das minhas mãos como alguém que corre para debaixo de um toldo em busca de proteção em meio a um aguaceiro e trovoadas. A segunda partiu-se após um descuido: não fui capaz de perceber sua fragilidade em sustentar outras xícaras prenhes de passados tristes sobre ela. A terceira despedaçou quando o horizonte que eu almejava eternizar aos trinta e sete anos resolveu atravessar a porta da sala e partir para outras paisagens quando eu ainda tinha trinta e seis.
Não sei por que ainda as mantenho aqui. Fraturadas e sem utilidade além de me dizerem todos os dias que as quebrei assim como fraturei relações e não curei histórias estilhaçadas e arraigadas dentro mim, que sou toda como uma de minhas gavetas: forrada à tecido colorido, no entanto, também sem alça. A mesa de cabeceira carente de uma de suas gavetas, essa de flores coloridas que resolvi tirar da peça sem resolver o problema da falta de alça (sim, fiz de uma ausência nascer uma outra), essa gaveta que disse ser parte daquela cabeceira do início da frase. A cabeceira carente de uma gaveta carente de uma alça é a única testemunha dos meus sonhos com o infinito. Ela sabe que as coisas findam, mas nunca foi insensível o suficiente para me acordar. Vive sua dor de não ter uma gaveta todas as noites, repetidamente, sem por um instante qualquer conjecturar que eu preciso saber o segredo de estar aqui imperfeita, imprecisa, inconclusa, mutilada.
A minha vizinha disse que não é bom manter objetos quebrados dentro de casa. Segundo ela, uma finitude carrega outra finitude dentro, num eterno quebrar de coisas que vão se findando até não restar mais nada além de caquinhos infinitos de finitudes. Eu tento entender então que para ser infinito o Universo quebra utensílios domésticos toda vez que insisto em não entender que tudo que parte concede-nos um intervalo: um tempo de ir até a lojinha de bairro e comprar uma outra xícara. Nesse hiato entre o armário com sua lacuna e os nossos passos na rua é que acontece a mágica do mundo. O Universo é criado na ausência do que partiu, no vazio do que está ávido por um outro nascedouro.
Então eu penso que para seguir até à lojinha, preciso ser capaz de juntar todas as vezes que vi a mulher que amei beber café e fumar seu cigarro na varanda, colocar os instantes das manhãs de outono dentro de sacolas plásticas de mercado e conduzi-las até a garagem do condomínio onde fica um lugar tão feio que não merece espaço neste texto. Numa terça à noite presenciar um caminhão da prefeitura recolher meus caquinhos de infinitas finitudes. Ver, da minha janela da sala, homens jovens, cansados de viverem suas vidas de restos e migalhas de pessoas que quebram coisas como eu, arremessarem minhas xícaras sem alça para dentro do caminhão. E assim entender a finitude dos objetos quebrados.
Caminhar até a lojinha de bairro e voltar devagar, para não quebrar as xícaras novas pelo caminho.
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