"Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"

Descalça, os meus primeiros passos foram dados no décimo andar de um prédio antigo na Avenida da Consolação. De lá eu soube do seu pendor para uma nebulosa: com sua imensa nuvem de gás e poeira, São Paulo é uma cidade que, ironicamente, gera estrelas de suas próprias contradições. É por isso que muita gente quando chega aqui, não entende nada mesmo, Caetano. Só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João e olhe lá. Mas entendi precocemente e sem modéstia nenhuma que a matéria de que é feito esse lugar também foi capaz de gerar em mim fatos significativamente tangíveis. São Paulo nos dá forma, nos concretiza. Volto a essa cidade com a certeza de que é aqui que habita o aço que reveste meu peito e que é aqui também que as estrelas rompem o próprio material que as cerca, o que, mais uma vez, é irônico, porque foi dessa substância que se originaram. São Paulo é uma nebulosa. Nós, paulistanos, somos uma ironia estrelar.

A Praça Roosevelt me deu meu primeiro machucado no joelho e na alma. Foi nessa praça que meu pai me levou para andar de bicicleta pela primeira vez, antes dos meus seis anos de idade. Levei um tombo, sangrei. Depois, antes dos meus trinta anos, no mesmo lugar, levei outra queda e sangrei de novo. Tombo de teimosia. Uma teimosia em meio a uma assembleia geral de professores em que eu não sabia se estava votando a continuidade da greve porque era necessário encurralar o governo ou se era porque eu queria ficar mais tempo perto da pessoa que tencionava todas as minhas decisões. Sangrei de teimosia. Teimosia com nome de mulher.

Ainda antes dos oito anos, São Paulo me apresentou um palácio cujo nome é uma afronta: Palácio dos Bandeirantes. Conheci todas as suas árvores, os cantos escusos de seus bosques, o carpete de seus corredores, os quadros do saguão, ao menos dois governadores ruins como são todos os neoliberais, a empáfia da polícia militar, o barulho e a ventania dos helicópteros esvoaçando os meus cabelos bem de perto e, pasmem, estive no velório de Airton Senna.  Minha mãe trabalhava na imprensa do governador, então eu era uma menina coberta pelos noticiários. Acreditei por um tempo que eu era uma criança feita de papel. Jornalisticamente alfabetizada pelas notícias de São Paulo.

Minha mãe, então, me matriculou num colégio público com nome de estação e cheiro de golpe: Marechal Deodoro. Mal sabia eu, na época, que se soubesse o que sei agora, preferiria Dom Pedro II, o imperador. Estudei nessa escola no meio do Morumbi até a segunda série. A tia Vanda um dia me esqueceu no colégio e eu voltei sozinha, caminhando, porque havia decorado o trajeto. As avenidas da cidade sempre foram largas o suficiente para a minha coragem.

São Paulo desde cedo me desafiou e eu fui aceitando seus desafios porque essa cidade é para mim um abraço e um laço sutil que entrelaça as minhas histórias. Na Rangel Pestana tem um prédio repleto de passado meu, é bom avisar. Na Venceslau Brás há um moço ruivo me esperando para almoçar. Eu ainda lembro quando ele foi até a minha mesa, durante um café que eu tomava cedinho numa padaria próxima ao meu primeiro emprego, e me fez o convite que eu esperava todas as manhãs que ele fizesse. Mas eu não fui, pois sempre tive mais coragem para andar sozinha que acompanhada. Dizem que ele ainda está lá na porta do restaurante com uma pergunta de Neruda para me oferecer. 

Sobre os bares da cidade,  apenas dois foram capazes de me corporificar. Estou palpável ainda nesses locais, porque gosto da capacidade que São Paulo tem de cimentar algumas histórias. Lugares que não possuem a argamassa da vida que pulsa não me interessam. Portanto, ainda estou lá no Bar Brahma, na Avenida São João, ouvindo Guilherme Arantes cantar "Gaivotas". Ao mesmo tempo, estou também numa esquina da Alameda Santos só porque sei que ali morou Zélia Gattai e os sonhos anarquistas de sua família.

O Mappin não faliu no quadro da sala da casa de meus pais. Lá, o Mappin também está, corpóreo, como eu e a minha mãe cruzando o centro da cidade na volta para casa. Na Augusta estão todas as trilhas sonoras de Tarantino que apreciei nos cursos de cinema que fiz. A Praça da Sé sabe que eu quase me casei com o homem que resolveu pagar um convênio médico para mim porque "pelo amor de Deus, Fernanda, essas dores nas costas precisam acabar". Mal sabia ele que era a dor do revestimento que a cidade talhou em mim, ela sabia que eu ia precisar.

Concreto. Cimento. É de aço que sou feita. 

São Paulo, eu volto para a sua argamassa, para as suas luzes noturnas, para a sua concreta realidade, para seu cinema de rua, para as suas incoerências, para os seus abismos que nos olham nos olhos e depois nos sorriem como quem diz "eu avisei".

Ah, São Paulo! 

Eu no meu ponto turístico favorito, Cine Belas Artes. Registro do meu filho Pablo que passou a frequentar o melhor cinema da cidade comigo.



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