Os cigarros que não fumei
Então quando termina a partida e meu time sai de campo carregando o peso da derrota de ter perdido também um pênalti, meus amigos se retiram para um canto afastado do churrasco e acendem seus cigarros. Eu fico, eu sempre fico. Ali, no lugar em que as pessoas que não fumam ficam. Com seus dilemas sem atalhos. Pensando coisas que só as pessoas que não fumam sabem o que é assim como só as pessoas que fumam sabem o que pensam quando fumam após a derrota do seu time. Talvez esse cigarro que não fumo pudesse ter feito a derrota do meu time doer menos, pois eu, que não fumo, sinto a dor dos que não tragam.
Então quando minha mãe me liga para me contar sobre um absurdo qualquer do condomínio em que mora, eu me retiro para algum canto discreto de algum lugar em que eu esteja. Não para a área dos fumantes, para a área dos fumantes nunca, porque eu não fumo. Dou conselhos a minha mãe sem tragar nenhuma resposta ou solução que faça uma fumaça além da minha própria existência de pessoa que não fuma em algum lugar discreto reservado às pessoas sem atalhos como eu e a minha mãe, que também não fuma e que, exatamente por isso, também enlouquece com os cinzeiros da humanidade.
Então quando estou imersa em uma discussão política ou quando faço alguma análise do cenário educacional brasileiro sentada numa mesa de bar em alguma esquina da cidade depois de ter me lembrado de que sou professora, também não fumo, mas muitos dos meus amigos fumam, e então eu fico ali sendo completamente alguém sem nenhuma chance de salvar a mim mesma das minhas ideias, porque como não fumo não tenho a pausa de um trago para pensar melhor antes de dizer algumas coisas. Quem fuma tem a vantagem dos que hesitam, quem não fuma acende o isqueiro de seus pensamentos e, se tiver o Sol em escorpião, incendeiam o mundo.
Apesar de parecer o contrário, nós que não fumamos erramos muito. Somos excepcionais na arte de revelar nossas imperfeições. Estamos sem bote algum que evite nosso naufrágio. Temos na ponta da língua um outro tipo de nicotina: nocivo e natural, o cinza do nosso inconsciente revelado em sílabas de palavras proparoxítonas, extensas, intensas e obrigatoriamente acentuadas. Doemos em doses maiores e, provavelmente, viveremos mais anos para doermos ainda mais em tempo de vida e de dores vividas. Sem atalhos, vivendo todas a sorte do destino e, talvez, por mais tempo. É mole? Não, é careta.
Os cigarros que não fumei provavelmente almejam outro destino para os meus pensamentos. Talvez pretendam, os cigarros que não fumei, levar as minhas ideias até uma janela do oitavo andar de um prédio azul ali ao final do Viaduto Nove de Julho e de lá lançar sobre a cidade as palavras secretas que eu deveria ter guardado numa noite de maio do ano passado. Os cigarros que não fumei possuem quase que uma lealdade desumana (o que considero excepcional já que a humana foi tragada) de não revelarem nunca tudo que a partir de nós teria sido palavra se não fosse fumaça. Os cigarros que não fumei nutrem paixões crônicas por todos os meus excessos, desconfio. Provavelmente tenham um ciúme doentio por eu os nunca ter amado tanto ao ponto de viciá-los na minha boca. Fiam-se na convicção de que um dia eu deixarei de ser careta e correrei para suas brasas acalantadoras. Os cigarros que não fumei estão me aguardando nas bancas de jornais de todas as esquinas da cidade, suspiram pelo momento em que vou baixar a guarda, entregar os pontos e nunca, nunca, nunca mais entregar a outros as palavras que os cigarros que não fumei sonham só para eles.
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