Se me chamarem, diga que eu saí


Do passado me esqueci

No presente me perdi

Se me chamarem,

Diga que eu saí

(Raul Seixas)

Numa tarde de baralho com meu filho, resolvi apresentar a ele Raul Seixas. Mas antes de colocar a minha playlist para ele ouvir, usei a tática do grande acontecimento. Jovens se interessam por grandes acontecimentos. Aprendi isso na escola, com meus alunos. Então eu sabia que precisava introduzir Raul a partir da narrativa de uma história marcante. Comecei, portanto, contando para o Pablo sobre a prisão de Raul durante a Ditadura Militar e as torturas que sofreu e que o levaram a entregar Paulo Coelho, seu amigo e coautor de muitas das suas composições. Ele se mostrou interessado, mas não o suficiente para que eu lhe apresentasse "Gita", "Ouro de tolo", "As minas do rei Salomão" e "Cowboy fora da lei", as minhas preferidas de Raulzito. Então disse que, uns anos atrás, eu havia escutado na rádio um depoimento de um homem que dizia ter sido salvo por uma música de Raul (e é claro que a música era "Tente outra vez"). Contei para o Pablo que o homem dizia estar prestes a se suicidar quando ouviu aquela determinada canção tocar. Recuou, fechou a janela e tentou outra vez. Pronto, o ambiente estava preparado para a minha playlist, mesmo com o Pablo fazendo caras e bocas para a minha sorte nas cartas. Eu vencia algumas e ele tentava outra vez (ok, piada péssima, eu sei).

O interessante de apresentar um artista do tamanho de Raul a um público mais jovem é observar que, apesar de se acharem descolados e abertos a várias desconstruções, eles levam um susto com a maluquice das letras de um cara que pensava uma Sociedade Alternativa dentro de composições que já eram elas mesmas um mundo à parte. A cada música que tocava, Pablo arregalava os olhos demonstrando espanto com alguns versos como "A letra A tem meu nome". Seus olhos eram uma pergunta: "Como assim esse cara criou isso? Essa ideia de uma coisa grande estar dentro de uma coisa pequena e, ainda por cima, ser ele próprio?". Eu não respondia nada, apenas comentava que ele estava ouvindo um poeta maluco e dos melhores que já tivemos por aqui e que muitas e muitas vezes as pessoas pediriam para tocar Raul nos shows que ele e que seus futuros netos assistiriam. E que isso nunca poderia ser considerado um clichê.

Mas é claro que eu não estava apenas apresentando Raul para o meu filho sem outra intenção que não fosse também muito forte para mim. Eu ouço Raul quando quero me descolar da realidade e das minhas quimeras pessoais. Porque Raul coloca no verso frases de quem habita outro tempo e espaço. E, às vezes, o cotidiano das minhas crônicas não me alimentam a alma. Vivo como quem pensa em possibilidades o tempo todo. Claro que eu vejo as manhãs e o Pico do Jaraguá da minha janela da sala, as minhas xícaras brancas de porcelana na mesa durante o café da tarde e o espreguiçar do meu gato. Deixei de passar o dia sem vivenciá-lo desde quando li Tolstói. Observo o que é miúdo, agradeço à vida e tomo bastante água. No entanto, há dias que eu quero sentir o impossível. Raul é o impossível. 

"Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar"

No final da tarde, acabei ganhando mais partidas que o Pablo. Ele ficou decepcionado. Aproveitei para dizer a ele que, com 36 anos, acumulo muitas decepções. E que ouvir "Ouro de Tolo" faz muito mais sentido na minha idade que na dele, mas que ele deveria ouvir essa música mesmo assim. Pois  a vida, com tudo que nela acontece, pode ainda, na pior das hipóteses, virar uma baita canção. 

E se não nos é possível compor como Raul em meio ao caos do mundo, ouvi-lo nos lança num disco voador.

Para ouvir, clique aqui!

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