Dia 2 - 4g a menos e um cachecol listrado

Já era inverno e meu filho precisava de um cachecol xadrez para a festa junina. O sol estava tão bonito que resolvemos ir caminhando até o centro comercial, a uns três quilômetros de casa.

Assim que virei a chave da porta, minhas mãos foram até o bolso tentando me certificar de que eu estava levando o celular. E sim, estava. Incrível como eu não me lembrava de tê-lo pego. Meu corpo ainda agia no modo automático como se a minha mente ainda não tivesse feito o download da minha nova versão: 
"Ela não tem mais motivos para levar o celular.
Ela não quer mais fotografar uma formiga carregando folhas.
Ela não espera mais ansiosa por uma mensagem aleatória que possa mudar sua vida em três segundos.
Ela só quer, veja bem, estar aqui e agora".

Virei a chave no trinco de novo. Dessa vez, para abrir a porta e deixar o celular lá dentro. Saí ao sol em busca de um cachecol xadrez, ar fresco para curar minha rinite alérgica e, quem sabe, uma fila de formigas carregando folhas. Sem  intenção de fotografá-las. Sem pressa para voltar logo, pegar o celular, ver as últimas notificações das redes sociais (que excluí, é sempre bom lembrar) e ver lá o que é que a gente ache que perdeu enquanto estava longe dessa geringonça vibrante. Esse sugador de alma que avisa que você tem sete notificações, mas esquece de lembrar que sua planta está morrendo. Deixei ele lá, de brinquedinho para os meus gatos que, claro, preferem caixas de sapato.

Fomos.

Meu filho, adolescente em tempo integral, não consegue largar o fone de ouvido. Levou o celular. Perdeu os recortes da vida de que mais gosto enquanto caminho: os diálogos do povo na rua, o noticiário de boteco anunciando que os EUA vão entrar na guerra, o Seu Aníbal gesticulando depois de um gole de cachaça que a Bíblia previu isso aí quando disse que o céu iria ficar escuro lá naquela página do "apoca", outro gole de cachaça interrompendo o apocalipse do Seu Aníbal, a conversa dos pássaros no verde das praças, e principalmente: o silêncio mental. 

No meu caso, o silêncio mental acompanhado do som dos meus passos no concreto que, curiosa e ironicamente, me traziam respostas para perguntas que me faço desde os quatorze anos. 

De onde vem o ciúme? 
A gente já nasce ciumenta ou pega isso de alguém como quem pega gripe de uma pessoa mal resolvida do nosso passado? Não vou responder. Fiquem sem celular, caminhem sozinhos e descubram. A mente quieta e longe de estímulos seleciona melhor o que quer nos dizer.

Achamos um cachecol xadrez vermelho num local muito mais distante do lugar em que julgávamos ir. Na mesma loja, acabei me encantando com um outro cachecol: um branco de listras coloridas, que me olhou de volta e sorriu. O preço era bom, então levei os dois. O vermelho xadrez para o meu filho e o listrado para mim.

Foi aí, então, que veio o primeiro flerte real fora das redes:

— Vocês vão na quermesse da igreja amanhã à noite? — atrás do caixa, um moço de olhos castanhos mirava firmemente os meus olhos enquanto dobrava, meticuloso, os cachecóis e os colocava numa sacola de papel acre.
— Sim. — respondi, meio distraída.
— Legal. Também vou. Aquela quermesse é boa demais, né?
— Sim, muito boa. 

Peguei meu cartão de crédito de dentro da minha pochete de crochê e percebi ele me observar. Ele olhava discretamente para as minhas mãos, provavelmente em busca de uma aliança. Não havia ninguém mais na fila, então ele continuou:

— Vai combinar com o seu estilo, o cachecol.

Ah, claro! Ali estava o "like" da vida real ou o "foguinho" disfarçado de "like" (pode ser também, sempre suspeito). Agradeci com um sorriso — porque sou legal, e também gosto do flerte. Principalmente os que vêm sem emojis e com contato visual.

Ele fez um gesto demorado para me entregar a sacola e disse:

— Nos vemos lá, então. 
— Sim, nos vemos lá. — respondi, com uma pontinha de vaidade nos olhos.

Ao chegar em casa, corri para experimentar o cachecol. E, sem modéstia nenhuma, ele realmente combinava com o meu estilo. O cachecol. Mirei meus olhos no espelho e disse para mim mesma: só você está se vendo agora, ninguém mais. 

Então pensei em limpar o celular de fotos que tenho tirado esse tempo todo. E lá estavam 4g de puro narcisismo. Selfies em três ângulos iguais. O vestido da formatura. A praia no verão. O ex sorrindo num momento que já virou poeira cósmica. Uma coleção de versões de mim feita para os outros.

Selecionar tudo.
Excluir.
Abrir lixeira.
Selecionar todas.
Excluir definitivamente.

Pronto. 
Nada mais do meu verão no litoral norte. Nem da confraternização da escola. Nem dos cartazes da greve. Nenhum sorriso efêmero, nem meu, nem dos outros. Nada mais além das cenas do curta-metragem que estamos produzindo.
O resto, o mundo pode viver sem. 

Agora, aqui estou! No princípio da primeira tarde de inverno, comigo mesma e o meu novo cachecol listrado e colorido. E, talvez (quem sabe, por que não?), com um novo crush na quermesse.

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