A finitude dos objetos quebrados
Já são três xícaras de porcelana branca. Miúdas e órfãs de alça. A primeira de que me lembro partir desintegrou-se durante um acesso de rinite que tive enquanto lavava a louça. O objeto rompeu das minhas mãos como alguém que corre para debaixo de um toldo em busca de proteção em meio a um aguaceiro e trovoadas. A segunda partiu-se após um descuido: não fui capaz de perceber sua fragilidade em sustentar outras xícaras prenhes de passados tristes sobre ela. A terceira despedaçou quando o horizonte que eu almejava eternizar aos trinta e sete anos resolveu atravessar a porta da sala e partir para outras paisagens quando eu ainda tinha trinta e seis. Não sei por que ainda as mantenho aqui. Fraturadas e sem utilidade além de me dizerem todos os dias que as quebrei assim como fraturei relações e não curei histórias estilhaçadas e arraigadas dentro mim, que sou toda como uma de minhas gavetas: forrada à tecido colorido, no entanto, também sem alça. A mesa de cabeceira carente de uma de su...