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A finitude dos objetos quebrados

 Já são três xícaras de porcelana branca. Miúdas e órfãs de alça. A primeira de que me lembro partir desintegrou-se durante um acesso de rinite que tive enquanto lavava a louça. O objeto rompeu das minhas mãos como alguém que corre para debaixo de um toldo em busca de proteção em meio a um aguaceiro e trovoadas. A segunda partiu-se após um descuido: não fui capaz de perceber sua fragilidade em sustentar outras xícaras prenhes de passados tristes sobre ela. A terceira despedaçou quando o horizonte que eu almejava eternizar aos trinta e sete anos resolveu atravessar a porta da sala e partir para outras paisagens quando eu ainda tinha trinta e seis. Não sei por que ainda as mantenho aqui. Fraturadas e sem utilidade além de me dizerem todos os dias que as quebrei assim como fraturei relações e não curei histórias estilhaçadas e arraigadas dentro mim, que sou toda como uma de minhas gavetas: forrada à tecido colorido, no entanto, também sem alça. A mesa de cabeceira carente de uma de su...

O cair da tarde de um sábado de setembro

Desço uma das avenidas mais famosas de Osasco enquanto olho para o céu e suspeito a antecipação de uma noite que chega fora da hora. Nuvens negras principiam a cor de chumbo no mundo. Não é hora de escurecer, embora alguns estabelecimentos já fechem suas portas e alguns ambulantes surjam com seus guarda-chuvas. Vai chover, mas não ainda. Estou a caminho do único lugar que vende sutilezas para adornar meu cabelo: um novelo de crochê no tom dos troncos das minhas raízes ancestrais, conchas apanhadas por mão de criança que vai se perder na praia e algumas pétalas de jasmim envoltas a gravetos. Repasso a lista mentalmente. Sei que parte do que quero só existe na minha imaginação, mas me movo atrás do possível que a realidade possa me fornecer. Ouço o barulho de um trovão, aperto o passo e prossigo. Escuto Beto Guedes pelo fone de ouvido quando um homem de meia idade me chama a atenção dentro de uma comedida lanchonete. É o jeito de ele colocar água num filtro que me detém: meticulosamente,...

Se me chamarem, diga que eu saí

Do passado me esqueci No presente me perdi Se me chamarem, Diga que eu saí (Raul Seixas) Numa tarde de baralho com meu filho, resolvi apresentar a ele Raul Seixas. Mas antes de colocar a minha playlist para ele ouvir, usei a tática do grande acontecimento. Jovens se interessam por grandes acontecimentos. Aprendi isso na escola, com meus alunos. Então eu sabia que precisava introduzir Raul a partir da narrativa de uma história marcante. Comecei, portanto, contando para o Pablo sobre a prisão de Raul durante a Ditadura Militar e as torturas que sofreu e que o levaram a entregar Paulo Coelho, seu amigo e coautor de muitas das suas composições. Ele se mostrou interessado, mas não o suficiente para que eu lhe apresentasse "Gita", "Ouro de tolo", "As minas do rei Salomão" e "Cowboy fora da lei", as minhas preferidas de Raulzito. Então disse que, uns anos atrás, eu havia escutado na rádio um depoimento de um homem que dizia ter sido salvo por uma músic...

O que aprendi com Alberto Caeiro

Nessa ultima segunda-feira de outono, eu sou apenas alguém que passa o café enquanto retira as roupas do varal. Nada mais que isso e finda a manhã. Vou até a cozinha e verifico a fervura da água, retorno à varanda, retiro uma camisa, dobro-a com coração de mãe que pede demora e olhar atento, posto-a num banco de espera e volto à cozinha. Observo o derramar da água no pó miudinho e acho graça, mas não penso. Gosto do que vejo, do que sinto, mas não penso sobre o que vejo nem sobre o que sinto. Porque pensar, me ensinou Caeiro, é não ver. E esse texto é sobre a minha salvação, ou melhor, é sobre a salvação de todas as pessoas que assim como eu sentem muito, sorte a nossa: há desenlace para nossas pujanças, o medicamento é a literatura. Apenas ser. Alberto Caeiro, aquele heterônimo* de Fernando Pessoa, sabe?, foi ele o meu terapeuta às duas e meia de uma madrugada gelada, já que não é possível uma consulta particular a essa hora, e a gente, que escreve, tem hora marcada para sofrer: na ma...

Sobre ancestralidade e a mistura do passado com o presente na criação do futuro

(Salve, Evaristo!) Hoje, conversando com minha avó preta (como a gente da família sempre a chamou), ela resolveu me contar algo que nunca tinha me contado antes: o motivo de não ter frequentado a escola. Vó Margarida me disse que seu pai, indígena e (segundo ela) desligado da vida, não registrou nunca ela em cartório algum. Minha vó cresceu inexistente, nas palavras dela. E como não existia, seu pai não tinha como matriculá-la na escola. Vó Margarida existia. Mas não no documento. Não para o Estado. Vó Margarida não existia e por isso não tinha direitos? Ou não tinha direitos e por isso não existia? Só depois de adulta, vó Margarida foi registrar sua existência. Aprendeu apenas a ler, mas diz não saber escrever, pois, nas palavras dela, ler e escrever são coisas diferentes. Vó Margarida lê muito. Disse ainda, no telefone, que teve de levar duas testemunhas no cartório para fazer o primeiro registro dela. Vó Margarida teve que levar duas pessoas para provar que ela existia. Só a presenç...

O homem dos meus sonhos

Durante muitas noites, das de meados de 2017, eu sonhei o mesmo sonho. Eu estava dirigindo por uma estrada, quando me deparava com um homem que jogava  terra no meio do meu caminho e me impedia de passar. Ele ria do alto de uma pequena colina enquanto construía um castelo de obstáculos na minha frente. Nunca entendera muito bem essas cenas oníricas que meu subconsciente criava. E, como citei anteriormente, esse era um sonho que se repetia algumas vezes. Exatamente da mesma forma. A mesma estrada. O mesmo homem. Até que ontem, entendi tudo ao ouvir a conversa de duas vizinhas. Enquanto uma estendia as roupas no varal, para a outra, que fazia o mesmo do outro lado do muro, dizia: -- Ele cuidava sempre da pracinha em frente à casa dele. Todo dia eu via ele lá, na volta do mercadinho da Dona Olinda. Era um homem que plantava. Eu acho isso bonito, sabe, Joana? Um homem que sorri enquanto cuida da terra. Tinha sempre um sorriso no rosto ele. Ria bastante. Gostava das plantas. E continua:...

Eu queria ser um golfinho

Já contei para alguns amigos a história do meu primeiro emprego: fui atendente de caixa de uma loja beeem famosa num shopping beeem famoso! E eles sempre me incentivaram a escrever sobre como consegui o emprego e como pedi demissão. São eles, meus amigos, o grande motivo deste blog existir. Então... Bora lá! Depois de passar por inúmeras dinâmicas nas quais eu mentia — como quando respondi que, se fosse um animal, seria um golfinho, mesmo gostando muito mais dos elefantes —, cheguei à temida última etapa do processo: a entrevista. Foi lá que a gerente me interrogou de pronto: — Diga o pior defeito que você acredita que possui. E eu respondi de pronto, e de cansada daquilo tudo também: — É o ciúme, a posse. Se eu sou a dona de algo, ninguém tasca a mão no que é meu. Ela então continuou: — E se um dia você chegar na loja e der falta de uma caneta sua, o que você faria? — É pra falar a verdade mesmo? — Sim. — Eu não deixaria uma caneta nesta loja, porque escrevo a lápis e aqui não me pare...