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Dia 1 - Primeiro dia sem redes sociais

É como se meu polegar tivesse vontade própria.  Acordei por volta das oito horas da manhã no feriado de 19 de junho, meu primeiro dia oficialmente fora das redes. Olhei para o teto do quarto, onde meus adesivos de planetas ainda brilhavam e, adestradamente, virei para o lado em que deixo o celular. Meu dedo, autônomo e inquieto, desbloqueou a tela e foi direto para o ícone... que não estava mais lá.  E eu fiquei ali. Olhando para a tela vazia, me perguntando: o que eu queria ver mesmo? Sim, eu tinha deletado. Não foi desinstalar, dar um tempo ou fazer uma “limpa no feed pra focar em mim”. Eu tinha deletado   o Instagram . De-le-ta-do. Largado o  like.  Inviabilizado o  foguinho . E feito o mesmo com o Facebook e o X, redes que eu nem usava tanto, mas que se davam o luxo de me importunar com notificações de gente que sabe menos de mim do que minhas cartas de Tarô. E agora estou aqui: na vida tangível e real. Aparentemente intacta. Ainda me alimento, respiro ...

E você, professora, o que fez nas férias?

Talvez eu devesse mentir. Quem sabe dar uma resposta evasiva e escapar correndo para o banheiro mais próximo. Ou inventar uma viagem tão fantástica que não teria sobrado tempo para tirar fotos. Talvez um novo namorado de mentira, daqueles de tirar o fôlego e que possa justificar perfeitamente minhas olheiras de cansaço. Qualquer coisa para me livrar logo da mais comum e aterrorizante pergunta feita pelos professores na primeira reunião pedagógica do primeiro dia do segundo semestre: "E você, professora, o que fez nas férias?". Toda professora com um salário acima do padrão QPE-14A foi para alguma montanha tão íngreme que nem o mais habilidoso aluno das aulas de educação física conseguiria escalar. Aquelas que não viajaram para um lugar muito conhecido por não ter crianças e adolescentes, visitaram exposições da própria cidade, famosas por serem pouco frequentadas por... crianças e adolescentes. Outras preferiram conhecer uma padaria diferente a cada manhã e postaram fotos ...

No final do beco um homem toca Cartola

Cecília caminhava por uma viela escondida entre o prédio de uma faculdade de alto padrão e um restaurante fadado a vender marmitas aos professores da universidade. Não queria rimar a vida com o seu andarilho nem acreditar para sempre que esta mesma vida seria também um moinho assim como todas as sonoridades dos parágrafos que surgiam dos encontros com seus pretendentes. Todos os olhares que cruzavam com os dela davam num verso mesmo quando não davam em amor nem sexo. Era ao lado de um pequeno mercado de peixes, reduzido a ser pequeno porque existem os grandes, que morava uma das suas maiores preocupações: uma prima adormecia por mais horas que permitia o relógio por não suportar saber que a durabilidade é um fato para os enlatados e para a sua relação com as pessoas. Era preciso acordá-la para, inexoravelmente, fazê-la recordar a ausência da mãe, do pai que sequer conhecera e agora de um filho fruto de um amor que também resolvera partir. Quatro ausências presentes na penumbra do quart...

Os cigarros que não fumei

Então quando termina a partida e meu time sai de campo carregando o peso da derrota de ter perdido também um pênalti, meus amigos se retiram para um canto afastado do churrasco e acendem seus cigarros. Eu fico, eu sempre fico. Ali, no lugar em que as pessoas que não fumam ficam. Com seus dilemas sem atalhos. Pensando coisas que só as pessoas que não fumam sabem o que é assim como só as pessoas que fumam sabem o que pensam quando fumam após a derrota do seu time. Talvez esse cigarro que não fumo pudesse ter feito a derrota do meu time doer menos, pois eu, que não fumo, sinto a dor dos que não tragam. Então quando minha mãe me liga para me contar sobre um absurdo qualquer do condomínio em que mora, eu me retiro para  algum canto discreto de algum lugar em que eu esteja. Não para a área dos fumantes, para a área dos fumantes nunca, porque eu não fumo. Dou conselhos a minha mãe sem tragar nenhuma resposta ou solução que faça uma fumaça além da minha própria existência de pessoa que não...

A casa amarela

            ( Repostando um dos meus textos favoritos, presente no meu livro "Miscelânea")            Tentei buscar fotos e não encontrei muitas. Levaram meu celular e com ele boa parte das lembranças da casa amarela: a primeira casa na qual morei com meu filho. Antiga. Pequena. De aluguel brando. Com muita reforma por fazer. Varal sempre remendado. Um dos muros ainda na argamassa. Dois vizinhos de corredor. E o que mais me importava: a cor e o sol.              A casa era toda pintada de amarelo e os raios de sol entravam pelas janelas amplas e altas, daquelas que a gente abre para fora e fica pensando o que sente por dentro a pessoa que se dedica a fabricar janelas. Gente que bota na mão a responsabilidade de lembrar o outro de que a vida acontece lá fora.              A minha era a casa do meio. A de número dois. E moravam nela, p...

"Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"

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Descalça, os meus primeiros passos foram dados no décimo andar de um prédio antigo na Avenida da Consolação. De lá eu soube do seu pendor para uma nebulosa: com sua imensa nuvem de gás e poeira, São Paulo é uma cidade que, ironicamente, gera estrelas de suas próprias contradições. É por isso que muita gente quando chega aqui, não entende nada mesmo, Caetano. Só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João e olhe lá. Mas entendi precocemente e sem modéstia nenhuma que a matéria de que é feito esse lugar também foi capaz de gerar em mim fatos significativamente tangíveis. São Paulo nos dá forma, nos concretiza. Volto a essa cidade com a certeza de que é aqui que habita o aço que reveste meu peito e que é aqui também que as estrelas rompem o próprio material que as cerca, o que, mais uma vez, é irônico, porque foi dessa substância que se originaram. São Paulo é uma nebulosa. Nós, paulistanos, somos uma ironia estrelar. A Praça Roosevelt me deu meu primeiro machucado no joelho e na alma. F...

A Bernardo Soares

A um apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe, sozinha, completamente sozinha, aqui também cheguei, Bernardo Soares. Sob um vestido roto de cambraia e um sol cálido de um verão que se antecipou e tingiu as marcas de minha sandália sobre meus pés. Na minha mão estava apenas um alforje sem seu cavalo, perdido em alguma quimera do meu passado. Cheguei a esta paragem sozinha. O que sou é a minha bagagem, companhia e recompensa. O botão que deixa inciso o pano acima do meu busto, perdi no caminho. Virou miçanga com que uma criança presenteia sua mãe. A fina linha que tecia o bordado dos meus ombros está presa num graveto de uma árvore no meio da Mata Atlântica, que é o bioma que mais se aproxima em tamanho e diversidade dos percalços que me engendraram. Sim, eu vim maltrapilha e sem nada, porque de onde venho não há matéria de que são feitos os meus sonhos. Não é possível perpetuar os segundos de um riso, então os deixei em uma praia para um casal adolescente encontrar. T...