Postagens

A primeira declaração de amor

Depois de muita insistência, dona Cícera tinha vencido minha mãe. Eu iria ao passeio junto à turma da rua. Estava oficialmente autorizada a ir a um programa de auditório do Canal 9, TV Manchete — que, sejamos honestos, nem a própria Manchete assistia. A ideia era dar uma força para audiência, bater palmas, gritar quando mandassem e parecer feliz com prêmios que ninguém ganhava de verdade. Minha mãe, desconfiada, achava que alguém podia me sequestrar ao vivo na televisão. Ou, o que era mais provável, que eu pudesse não obedecer alguma ordem, porque, você sabe, né, Ciça, a Fernanda é uma menina difícil, nunca faz o que não quer.  — Filha, vem cá, você quer mesmo ir a esse programa?   — Quero. Tá todo mundo indo. Fui. Com publicidade gratuita de um refrigerante que ganhamos por estar lá e mais um lanchinho no intervalo se aplaudíssemos os convidados entrevistados de pé. E entre um intervalo e outro, a filha da vizinha, minha amiga de rua, num repente como quem vê uma apariçã...

Um senhor muito velho de asas enormes

Em uma pilha de livros que me desafiavam a organizá-los na estante da escola, um deles tinha mais pó que o habitual pelo tempo em que estava ali esperando um destino mais confortável. Passei a mão sobre a capa para afastar a densa crosta de poeira suja e, imediatamente, meus olhos se detiveram na imagem de uma asa nas costas de um velho. Depois veio o título longo. E, então, um nome que era quase uma criança pedindo comida no farol: Gabriel García Márquez. O mestre do realismo mágico tem um longo relacionamento comigo. E, em conjunção com Júpiter, Sol e Lua Nova em Câncer, a possibilidade de eu conduzir as minhas leituras para a memória dos meus primeiros contatos com a boa literatura seria quase inevitável.  Mas relutei.  Já estava terminando um de Pessoa e ainda carregava outro de contos mitológicos. Muitos livros para levar na mochila, uma baldeação de metrô para fazer e dois ônibus até chegar em casa. Separei-o para guardá-lo na estante de contos. Quem sabe lê-lo em outro ...

Dia 2 - 4g a menos e um cachecol listrado

Já era inverno e meu filho precisava de um cachecol xadrez para a festa junina. O sol estava tão bonito que resolvemos ir caminhando até o centro comercial, a uns três quilômetros de casa. Assim que virei a chave da porta, minhas mãos foram até o bolso tentando me certificar de que eu estava levando o celular. E sim, estava. Incrível como eu não me lembrava de tê-lo pego. Meu corpo ainda agia no modo automático como se a minha mente ainda não tivesse feito o download da minha nova versão:  "Ela não tem mais motivos para levar o celular. Ela não quer mais fotografar uma formiga carregando folhas. Ela não espera mais ansiosa por uma mensagem aleatória que possa mudar sua vida em três segundos. Ela só quer, veja bem, estar aqui e agora". Virei a chave no trinco de novo. Dessa vez, para abrir a porta e deixar o celular lá dentro. Saí ao sol em busca de um cachecol xadrez, ar fresco para curar minha rinite alérgica e, quem sabe, uma fila de formigas carregando folhas. Sem  intençã...

Dia 1 - Primeiro dia sem redes sociais

É como se meu polegar tivesse vontade própria.  Acordei por volta das oito horas da manhã no feriado de 19 de junho, meu primeiro dia oficialmente fora das redes. Olhei para o teto do quarto, onde meus adesivos de planetas ainda brilhavam e, adestradamente, virei para o lado em que deixo o celular. Meu dedo, autônomo e inquieto, desbloqueou a tela e foi direto para o ícone... que não estava mais lá.  E eu fiquei ali. Olhando para a tela vazia, me perguntando: o que eu queria ver mesmo? Sim, eu tinha deletado. Não foi desinstalar, dar um tempo ou fazer uma “limpa no feed pra focar em mim”. Eu tinha deletado   o Instagram . De-le-ta-do. Largado o  like.  Inviabilizado o  foguinho . E feito o mesmo com o Facebook e o X, redes que eu nem usava tanto, mas que se davam o luxo de me importunar com notificações de gente que sabe menos de mim do que minhas cartas de Tarô. E agora estou aqui: na vida tangível e real. Aparentemente intacta. Ainda me alimento, respiro ...

E você, professora, o que fez nas férias?

Talvez eu devesse mentir. Quem sabe dar uma resposta evasiva e escapar correndo para o banheiro mais próximo. Ou inventar uma viagem tão fantástica que não teria sobrado tempo para tirar fotos. Talvez um novo namorado de mentira, daqueles de tirar o fôlego e que possa justificar perfeitamente minhas olheiras de cansaço. Qualquer coisa para me livrar logo da mais comum e aterrorizante pergunta feita pelos professores na primeira reunião pedagógica do primeiro dia do segundo semestre: "E você, professora, o que fez nas férias?". Toda professora com um salário acima do padrão QPE-14A foi para alguma montanha tão íngreme que nem o mais habilidoso aluno das aulas de educação física conseguiria escalar. Aquelas que não viajaram para um lugar muito conhecido por não ter crianças e adolescentes, visitaram exposições da própria cidade, famosas por serem pouco frequentadas por... crianças e adolescentes. Outras preferiram conhecer uma padaria diferente a cada manhã e postaram fotos ...

No final do beco um homem toca Cartola

Cecília caminhava por uma viela escondida entre o prédio de uma faculdade de alto padrão e um restaurante fadado a vender marmitas aos professores da universidade. Não queria rimar a vida com o seu andarilho nem acreditar para sempre que esta mesma vida seria também um moinho assim como todas as sonoridades dos parágrafos que surgiam dos encontros com seus pretendentes. Todos os olhares que cruzavam com os dela davam num verso mesmo quando não davam em amor nem sexo. Era ao lado de um pequeno mercado de peixes, reduzido a ser pequeno porque existem os grandes, que morava uma das suas maiores preocupações: uma prima adormecia por mais horas que permitia o relógio por não suportar saber que a durabilidade é um fato para os enlatados e para a sua relação com as pessoas. Era preciso acordá-la para, inexoravelmente, fazê-la recordar a ausência da mãe, do pai que sequer conhecera e agora de um filho fruto de um amor que também resolvera partir. Quatro ausências presentes na penumbra do quart...

Os cigarros que não fumei

Então quando termina a partida e meu time sai de campo carregando o peso da derrota de ter perdido também um pênalti, meus amigos se retiram para um canto afastado do churrasco e acendem seus cigarros. Eu fico, eu sempre fico. Ali, no lugar em que as pessoas que não fumam ficam. Com seus dilemas sem atalhos. Pensando coisas que só as pessoas que não fumam sabem o que é assim como só as pessoas que fumam sabem o que pensam quando fumam após a derrota do seu time. Talvez esse cigarro que não fumo pudesse ter feito a derrota do meu time doer menos, pois eu, que não fumo, sinto a dor dos que não tragam. Então quando minha mãe me liga para me contar sobre um absurdo qualquer do condomínio em que mora, eu me retiro para  algum canto discreto de algum lugar em que eu esteja. Não para a área dos fumantes, para a área dos fumantes nunca, porque eu não fumo. Dou conselhos a minha mãe sem tragar nenhuma resposta ou solução que faça uma fumaça além da minha própria existência de pessoa que não...