A primeira declaração de amor
Depois de muita insistência, dona Cícera tinha vencido minha mãe. Eu iria ao passeio junto à turma da rua. Estava oficialmente autorizada a ir a um programa de auditório do Canal 9, TV Manchete — que, sejamos honestos, nem a própria Manchete assistia. A ideia era dar uma força para audiência, bater palmas, gritar quando mandassem e parecer feliz com prêmios que ninguém ganhava de verdade. Minha mãe, desconfiada, achava que alguém podia me sequestrar ao vivo na televisão. Ou, o que era mais provável, que eu pudesse não obedecer alguma ordem, porque, você sabe, né, Ciça, a Fernanda é uma menina difícil, nunca faz o que não quer. — Filha, vem cá, você quer mesmo ir a esse programa? — Quero. Tá todo mundo indo. Fui. Com publicidade gratuita de um refrigerante que ganhamos por estar lá e mais um lanchinho no intervalo se aplaudíssemos os convidados entrevistados de pé. E entre um intervalo e outro, a filha da vizinha, minha amiga de rua, num repente como quem vê uma apariçã...