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No final do beco um homem toca Cartola

Cecília caminhava por uma viela escondida entre o prédio de uma faculdade de alto padrão e um restaurante fadado a vender marmitas aos professores da universidade. Não queria rimar a vida com o seu andarilho nem acreditar para sempre que esta mesma vida seria também um moinho assim como todas as sonoridades dos parágrafos que surgiam dos encontros com seus pretendentes. Todos os olhares que cruzavam com os dela davam num verso mesmo quando não davam em amor nem sexo. Era ao lado de um pequeno mercado de peixes, reduzido a ser pequeno porque existem os grandes, que morava uma das suas maiores preocupações: uma prima adormecia por mais horas que permitia o relógio por não suportar saber que a durabilidade é um fato para os enlatados e para a sua relação com as pessoas. Era preciso acordá-la para, inexoravelmente, fazê-la recordar a ausência da mãe, do pai que sequer conhecera e agora de um filho fruto de um amor que também resolvera partir. Quatro ausências presentes na penumbra do quart...

Os cigarros que não fumei

Então quando termina a partida e meu time sai de campo carregando o peso da derrota de ter perdido também um pênalti, meus amigos se retiram para um canto afastado do churrasco e acendem seus cigarros. Eu fico, eu sempre fico. Ali, no lugar em que as pessoas que não fumam ficam. Com seus dilemas sem atalhos. Pensando coisas que só as pessoas que não fumam sabem o que é assim como só as pessoas que fumam sabem o que pensam quando fumam após a derrota do seu time. Talvez esse cigarro que não fumo pudesse ter feito a derrota do meu time doer menos, pois eu, que não fumo, sinto a dor dos que não tragam. Então quando minha mãe me liga para me contar sobre um absurdo qualquer do condomínio em que mora, eu me retiro para  algum canto discreto de algum lugar em que eu esteja. Não para a área dos fumantes, para a área dos fumantes nunca, porque eu não fumo. Dou conselhos a minha mãe sem tragar nenhuma resposta ou solução que faça uma fumaça além da minha própria existência de pessoa que não...

A casa amarela

            ( Repostando um dos meus textos favoritos, presente no meu livro "Miscelânea")            Tentei buscar fotos e não encontrei muitas. Levaram meu celular e com ele boa parte das lembranças da casa amarela: a primeira casa na qual morei com meu filho. Antiga. Pequena. De aluguel brando. Com muita reforma por fazer. Varal sempre remendado. Um dos muros ainda na argamassa. Dois vizinhos de corredor. E o que mais me importava: a cor e o sol.              A casa era toda pintada de amarelo e os raios de sol entravam pelas janelas amplas e altas, daquelas que a gente abre para fora e fica pensando o que sente por dentro a pessoa que se dedica a fabricar janelas. Gente que bota na mão a responsabilidade de lembrar o outro de que a vida acontece lá fora.              A minha era a casa do meio. A de número dois. E moravam nela, p...

"Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"

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Descalça, os meus primeiros passos foram dados no décimo andar de um prédio antigo na Avenida da Consolação. De lá eu soube do seu pendor para uma nebulosa: com sua imensa nuvem de gás e poeira, São Paulo é uma cidade que, ironicamente, gera estrelas de suas próprias contradições. É por isso que muita gente quando chega aqui, não entende nada mesmo, Caetano. Só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João e olhe lá. Mas entendi precocemente e sem modéstia nenhuma que a matéria de que é feito esse lugar também foi capaz de gerar em mim fatos significativamente tangíveis. São Paulo nos dá forma, nos concretiza. Volto a essa cidade com a certeza de que é aqui que habita o aço que reveste meu peito e que é aqui também que as estrelas rompem o próprio material que as cerca, o que, mais uma vez, é irônico, porque foi dessa substância que se originaram. São Paulo é uma nebulosa. Nós, paulistanos, somos uma ironia estrelar. A Praça Roosevelt me deu meu primeiro machucado no joelho e na alma. F...

A Bernardo Soares

A um apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe, sozinha, completamente sozinha, aqui também cheguei, Bernardo Soares. Sob um vestido roto de cambraia e um sol cálido de um verão que se antecipou e tingiu as marcas de minha sandália sobre meus pés. Na minha mão estava apenas um alforje sem seu cavalo, perdido em alguma quimera do meu passado. Cheguei a esta paragem sozinha. O que sou é a minha bagagem, companhia e recompensa. O botão que deixa inciso o pano acima do meu busto, perdi no caminho. Virou miçanga com que uma criança presenteia sua mãe. A fina linha que tecia o bordado dos meus ombros está presa num graveto de uma árvore no meio da Mata Atlântica, que é o bioma que mais se aproxima em tamanho e diversidade dos percalços que me engendraram. Sim, eu vim maltrapilha e sem nada, porque de onde venho não há matéria de que são feitos os meus sonhos. Não é possível perpetuar os segundos de um riso, então os deixei em uma praia para um casal adolescente encontrar. T...

A finitude dos objetos quebrados

 Já são três xícaras de porcelana branca. Miúdas e órfãs de alça. A primeira de que me lembro partir desintegrou-se durante um acesso de rinite que tive enquanto lavava a louça. O objeto rompeu das minhas mãos como alguém que corre para debaixo de um toldo em busca de proteção em meio a um aguaceiro e trovoadas. A segunda partiu-se após um descuido: não fui capaz de perceber sua fragilidade em sustentar outras xícaras prenhes de passados tristes sobre ela. A terceira despedaçou quando o horizonte que eu almejava eternizar aos trinta e sete anos resolveu atravessar a porta da sala e partir para outras paisagens quando eu ainda tinha trinta e seis. Não sei por que ainda as mantenho aqui. Fraturadas e sem utilidade além de me dizerem todos os dias que as quebrei assim como fraturei relações e não curei histórias estilhaçadas e arraigadas dentro mim, que sou toda como uma de minhas gavetas: forrada à tecido colorido, no entanto, também sem alça. A mesa de cabeceira carente de uma de su...

O cair da tarde de um sábado de setembro

Desço uma das avenidas mais famosas de Osasco enquanto olho para o céu e suspeito a antecipação de uma noite que chega fora da hora. Nuvens negras principiam a cor de chumbo no mundo. Não é hora de escurecer, embora alguns estabelecimentos já fechem suas portas e alguns ambulantes surjam com seus guarda-chuvas. Vai chover, mas não ainda. Estou a caminho do único lugar que vende sutilezas para adornar meu cabelo: um novelo de crochê no tom dos troncos das minhas raízes ancestrais, conchas apanhadas por mão de criança que vai se perder na praia e algumas pétalas de jasmim envoltas a gravetos. Repasso a lista mentalmente. Sei que parte do que quero só existe na minha imaginação, mas me movo atrás do possível que a realidade possa me fornecer. Ouço o barulho de um trovão, aperto o passo e prossigo. Escuto Beto Guedes pelo fone de ouvido quando um homem de meia idade me chama a atenção dentro de uma comedida lanchonete. É o jeito de ele colocar água num filtro que me detém: meticulosamente,...